O forfait foi tão grande que acabou por despertar o menino de rua que dormia encolhido no banco de uma praça de Curitiba. Era o então candidato à presidência da República, Affonso Camargo, e seus seguidores que se preparavam para mais um corpo a corpo com o eleitorado. O ano, 89. O guri não teve dúvidas. Chegou perto do candidato e tascou a seguinte pergunta: ‘‘O que o senhor pretende fazer pelos meninos de rua?’’ Pronto, desconcertou o presidenciável que teve que responder, diante da imprensa, que faria isso, aquilo e aquilo mais. Não convenceu Carlos Roberto Telles, o menino de rua.
Marcos BorgesXameguinho em ação: na pele do Sombra ele não dá sossego aos transeuntes que aderem às suas brincadeirasO gosto em deixar presidenciáveis de saia justa continuou. Tempos depois ele soube que o ex-deputado Ulysses Guimarães, que também disputava a mais famosa cadeira do poder, estaria em Curitiba. Carlinhos voou para o aeroporto e quando teve uma brecha chegou perto do velho ícone da política nacional mandou a tradicional pergunta. Que, obviamente, teve como resposta isso, aquilo e aquilo mais. Aí veio o golpe: ‘‘Mas o senhor é político há tanto tempo e por que não fez nada até agora?’’ Pano rápido.
E foi assim, na ousadia, que o menino de rua foi fazendo nome, lutando daqui e dali, até se transformar no palhaço Xameguinho. E quem pensa que ele parou de incomodar os grandões se engana. Ano passado, por exemplo, ele se acorrentou em pleno Calçadão de Curitiba para protestar contra a determinação da prefeitura em proibir a atuação de artistas de rua. A pendenga foi parar na justiça que permitiu a Xameguinho voltar a fazer suas graças.
Pois é, a vida do artista nunca foi das mais fáceis. ‘‘Tudo o que acontece comigo hoje é motivo de vitória. Cada passo que dou em direção ao bem eu considero uma vitória mesmo’’- diz Carlos Xameguinho. Atualmente, o artista está numa ‘‘turnê de ônibus’’ pelo Paraná. Londrina foi a primeira cidade a constar no roteiro. Aqui, ele vem se apresentando em praça pública e dedicando uma atenção especial aos meninos de rua. ‘‘Quero fazer um projeto artístico com essas crianças’’- diz ele sem especificar qual.
Bem, muitas coisas aconteceram entre a fase de menino de rua e a de artista de rua. A história é longa e, como fala mais que o homem da mala e a mulher dos queijos, é preciso estar bem atento para não perder nenhum detalhe. Nas ruas ele ficou dos 7 aos 10 anos. Foi para essa vida depois de uma surra bem levada do pai.
A sova aconteceu porque, num belo dia, teve vontade de comer virado com feijão e ovo. Falou da vontade para a professora que, prontamente, o levou e o acolheu em sua casa. Comeu o tal virado e como estava tarde para retornar para casa dormiu por lá mesmo.
No dia seguinte, o bafafá estava armado. Na escola, esperavam-no o pai e alguns policiais. Tudo explicado, Carlinhos voltou para a família. Lá, apanhou e apanhou e apanhou e apanhou e apanhou um pouco mais. Daí... ‘‘Decidi ir para as ruas mas tinha como objetivo tentar arrumar dinheiro para ajudar em casa’’- lembra-se. Pura ilusão. Os trocadinhos que ganhava eram gastos também na compra de cola de sapateiro.
Com o episódio da sabatina ao então presidenciável Affonso Camargo conseguiu chamar a atenção de alguns políticos interessados em tirar partido da situação. Apenas um, como lembra, deu-lhe a atenção devida: o ex-senador Leite Chaves que o levou para uma escola e fez - ou pelo menos tentou - com que houvesse a reconciliação com a família. Tempos depois, Carlinhos retornou às ruas por não ter encontrado entendimento com os pais.
Então tá! De volta à antiga vida, sabe-se lá porquê o garoto encasquetou que poderia ter melhores oportunidades em São Paulo. Foi. E foi de carona, caminhou alguns trechos mas chegou à capital paulista. Por um mês dormiu nas ruas até que alguns agentes de um instituto que presta assistência infantil o recolheu. Lá, passou a ter uma vida um pouco mais decente.
No instituto, que ele não se lembra direito do nome, Carlinhos descobriu que havia um curso de teatro e resolveu tentar a sorte. Foi tomando tanto gosto pela coisa que chegou a montar um espetáculo, ‘‘A História de Minha Vida’’, com roteiro e argumentos seus. Detalhe: ele ditou tudo para a professora já que era e ainda é analfabeto. A estréia aconteceu e sua atuação chamou a atenção de um capitão da Polícia Militar que, entusiasmado, lhe pagou um curso de teatro.
Fez o curso. ‘‘Uma vez estava dormindo quando veio o nome artístico’’- recorda-se. Assim nascia, há 6 anos, o palhaço Xameguinho. De volta a Curitiba, e para a casa dos pais, começou a animar festinhas e fazer apresentações aqui, ali, acolá. Foi tentando ganhar a vida como o ‘‘palhaço-sombra’’, uma autodenominação já que sua atividade também inclui a imitação do jeito das pessoas andarem.
Quando tudo parecia estar indo de vento em popa, eis que Xameguinho armou o maior barraco, ano passado, quando foi impedido de atuar nas ruas de Curitiba por determinação da prefeitura. Não pensou duas vezes: se acorrentou em praça pública até que as autoridades revissem sua posição. Ganhou espaço na mídia na mesma proporção da simpatia de pessoas que apoiavam sua causa - para se ter uma idéia, ele colheu um abaixo assinado subscrito, de acordo com suas informações, por 66 mil pessoas.
Entre os simpatizantes, o advogado Elias Mattar Assad que comprou a briga, foi à Justiça e conseguiu restabelecer o direito de Xameguinho voltar ao seu palco, ou seja, as ruas. Com a decisão favorável, ele encerrou seu protesto depois de 2 meses e meio.
Esse e outros episódios fazem parte do passado do palhaço-sombra. Tudo o que deseja agora, aos 21 anos de idade, é poder prosseguir seu caminho de artista mambembe. Por dia, como conta, chega a ganhar de 20 a 30 reais. Parte do dinheiro é enviada à sua família. ‘‘Com meus rendimentos já pude construir uma casa de material, comprar uma TV em cores e até sobra um dinheirinho para um perfume cheiroso. Agora só falta uma namorada’’- brinca.
O bom humor é uma de suas marcas registradas. Mas para quem já sentiu na pele o que é viver à margem da sociedade, ele não se esquece de chamar a atenção também para a grande vergonha nacional que até hoje nenhum político teve a decência de resolver: as crianças nas ruas. ‘‘Essas crianças precisam ter apoio moral não só da família mas principalmente das autoridades e da sociedade em geral’’- avisa. Tá certo, Xameguinho, tá certo!!

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