"O Nome da Rosa" sai em DVD
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de julho de 1999
Por Luiz zanin Oricchio 
São Paulo, 29 (AE) - Agora que "O Nome da Rosa" sai em DVD, torna-se mais uma vez inevitável a comparação entre o filme e o livro que está em sua origem. Não para saber qual é melhor ou pior, mesmo porque esse tipo de abordagem não tem lá muito sentido. Mas apenas para distinguir tratamentos diferentes entre um meio e outro. "O Nome da Rosa" foi o romance que tranformou o até então obscuro semiólogo Umberto Eco em personalidade mundial. Vendeu como pãozinho quente, mundo afora, o que não deixa de surpreender. Eco não adoça e não tempera. Não faz o jogo do gosto médio e envolve uma trama detetivesca, ambientada na Idade Média, em doses cavalares de cultura acumulada, com direito a trechos inteiros em latim, sem tradução ou notas de rodapé.
Quando o livro saiu, comentou-se que seria uma tese erudita que o medievalista Umberto Eco não tivera coragem de colocar em forma de ensaio. Para diluir a responsabilidade teórica, teria transformado tese em ficção. Na verdade, uma bela história, com um monge iniciante, Adso de Melk (Christian Slater
em um dos seus primeiros papéis), sendo introduzido aos mistérios da vida por um religioso veterano, William de Baskerville (Sean Connery). O cenário da ação é um velho convento, onde assassinatos em série estão sendo cometidos. Não faltam ingredientes emocionantes nem personagens à clef.
É o caso de William, o monge dono de raciocínio lógico prodigioso, cujo sobrenome, Baskerville, remete à obra de Conan Doyle e ao seu herói, Sherlock Holmes. Há o inquisidor Bernardo Gui e também um misterioso bibliotecário cego, Jorge - clara alusão a Jorge Luis Borges. No livro, a trama policial clássica convivendo com outra, erudita. O ambiente de reflexão, a biblioteca labiríntica, os exercícios espirituais, convergem para a esfera do intelecto. O núcleo detetivesco convida à ação. Eco concebeu seu romance com essas duas vertentes entrelaçadas e interagindo.
Cinema é outra coisa. Em geral precisa simplificar, para poder atingir o maior número possível de pessoas. Portanto, a adaptação não comportaria o tipo de vertigem mental proposta pelo semiólogo. Annaud fez o que se esperava dele: isolou a trama policial e descartou a intelectual. Empobreceu o material? Sem dúvida. No entanto, se você não cair na tentação de comparar versão e original, terá um belo divertimento pela frente. Mesmo porque o que resta de trama original é mais do que suficiente para preencher com interesse os 130 minutos de duração do filme.
Isso tem uma explicação. Quando o livro saiu, alguns críticos destacaram os méritos "cinematográficos" do texto. Por exemplo, os tempos da ação. Se havia um diálogo entre dois personagens que subiam uma escada, Eco cronometrava o real tempo necessário de subida para saber quanto deveria durar a conversa. Há também o sentido de suspense da trama, preservada para a versão na tela. Ou seja, Annaud tinha um ponto de partida muito consistente. Bastava desbastá-lo do cerebralismo incompatível com a tela. Foi o que fez, com sucesso. Serviço - "O Nome da Rosa". Direção de Jean-Jacques Annaud, com Sean Connery, Christian Slater. Distribuição: FlashStar


