O nome da flauta
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Altamiro Carrilho está com a vitalidade de quem faz o que gosta e mantém a coerência. Em Londrina, onde participou do 19º Festival de Música, o flautista deu um show de interpretação e bom humor, segredos da grande empatia com o público
Os olhos vasculham o ambiente enquanto surgem histórias ocorridas em vários países e que envolvem nomes como Leny Andrade, Pixinguinha, Ari Barroso, Benedito Lacerda e Jacó do Bandolim. Altamiro Carrilho chegou aos 55 anos de carreira com a pilha toda, mergulhado num bom humor que explica a empatia com o público.
Preocupado com o horário - ele iria ministrar uma oficina em seguida -, Carrilho recebeu a reportagem da Folha2, na terça-feira, quando chegou a Londrina para participar do 19º Festival de Música. Empolgado, contou sobre uma apresentação na Rússia em que, acidentalmente, a cantora caiu em um buraco e desapareceu do palco - na noite seguinte, os russos pediram para que ela repetisse o truque.
O flautista e compositor fala com alegria de sua carreira no exterior, do reconhecimento, das gravações internacionais e dos grupos de choro que existem fora do Brasil. Também relembra seus mestres, amigos e companheiros que já se foram. Entre as recordações, está a participação no programa de calouros de Ari Barroso.
À noite, em apresentação no Cine-Teatro Ouro Verde, Altamiro Carrilho surpreendeu com uma vitalidade que o impedia de sair do palco - a lucidez se reflete em um repertório com cerca de 4 mil músicas. Na apresentação, as brincadeiras afloraram em sátiras sobre a atual música sertaneja, críticas ferrenhas às composições comerciais, exaltação ao Brasil e muito diálogo com o público.
Os intervalos entre cada interpretação se tornaram uma surpresa. O flautista tocou o Hino Nacional, Atirei o Pau no Gato, improvisou muito e atendeu aos pedidos do público, executando Noites Cariocas e o tradicional Brasileirinho. A seguir, alguns trechos do bate-papo:
Como é completar 55 anos de profissão com a carreira em alta?
Altamiro Carrilho - É muito bom colher tudo o que eu plantei durante esses anos todos, isso deu frutos e agora estou tendo reconhecimento dentro da minha terra, as homenagens chegam a toda hora. Eu recebi uma comenda especial do presidente, isso me deixa muito feliz.
Você está viajando bastante. Como andam suas apresentações no exterior?
Altamiro Carrilho - No ano passado, em Israel, o teatro estava tão cheio que fiz duas sessões. Nos Estados Unidos já passei meses tocando em universidades. Em Tucson, no Arizona, toquei para 5 mil estudantes. Eles se interessam muito por nossa música, nos pedem partituras. Fui também para Albuquerque, no Novo México, dar uma oficina de choro. Tinha uma moça que queria tocar choro na tuba, então eu passei o Urubu Malandro, que é bem melódico. Ela ficou tão feliz, que valeu. Nessa época a Leny Andrade foi me visitar em Albuquerque e fizemos uma apresentação em que ela cantou alguns choros da Ademilde Fonseca.
Quem foram seus mestres?
Altamiro Carrilho - Quando eu tinha cinco anos, ouvi um disco do Patápio Silva e fiquei apaixonado pelo som que ele tirava. Depois vieram Pixinguinha, Benedito Lacerda, Dante Santoro e Jean-Pierre Rampal, que são meus ídolos. Não posso esquecer de meu primeiro professor, um funcionário dos Correios do Rio de Janeiro que me ensinou tudo o que sabia e ainda me emprestou sua flauta. Era o Joaquim Fernandes, que já morreu e era muito modesto.
Você chegou a substituir o Benedito Lacerda no conjunto do Canhoto. Como foi essa história?
Altamiro Carrilho - Fui pela indicação do próprio Benedito Lacerda, que me convidou para substituí-lo. Aceitei e foi assim que eu entrei em todos os estúdios de gravação.
Você também foi amigo do Pixinguinha. Como ele era?
Altamiro Carrilho - O Pixinguinha era calmo, humilde, muito fácil de conviver. Era um verdadeiro talento musical, compôs choros dos mais variados, desenvolveu estilos que não existiam. Ele foi além de (Joaquim Antônio da Silva) Calado, de Chiquinha (Gonzaga) e de (Ernesto) Nazareth usando melodias mais ricas.
E o Ari Barroso? Você participou do programa de calouros dele.
Altamiro Carrilho - Ele era fantástico. Foi o primeiro programa de calouros que eu fui, e ele gongava todo mundo à toa. O gongo era forte e assustava a gente. Eu passei em primeiro lugar e recebi oito prêmios, porque fazia sete semanas que ninguém vencia. Foi aí que eu consegui dinheiro para comprar uma flauta nova. A minha era muito velha, estava toda amarrada.
Como você vê a evolução do choro?
Altamiro Carrilho - Felizmente não apareceu nenhum inovador como o Astor Piazzolla, que fez um tango tão moderno que um músico comum não consegue tocar. Tivemos Severino Araújo, Jacó do Bandolim e Valdir Azevedo, que deram lapidação, toques e adornos no ritmo original sem deturpação. Até os grupos novos estão respeitando, com melodias e interpretações diferentes.
Como foi que Paula Robson, a primeira flautista da Orquestra Sinfônica de Nova York, gravou três composições suas?
Altamiro Carrilho - Ela veio ao Brasil e eu estava no exterior. Ela ouviu um disco meu em Nova York que o Sivuca tinha levado para tocar em uma rádio, e gostou muito. Aqui ela me procurou, e acabou encontrando o disco e a partitura. Meses depois ela resolveu gravar com alguns brasileiros que vivem lá. Foram três músicas: Pra ti América, Vivaldino - em que eu uso um fraseado de Vivaldi -, e Aeroporto do Galeão. Esta última eu fiz baseado numa sineta de chamada de vôo internacional. Ouvi a melodia, gravei e escrevi a música durante o vôo.
Você também foi gravado em Paris e no Japão.
Altamiro Carrilho - Em Paris também foi o Sivuca que levou alguns discos meus. Depois fui para lá e encontrei um flautista que gravou músicas minhas. No Japão foi uma surpresa. Passei três dias para me acostumar ao fuso horário, isso me embolou todo o meio de campo. Lá fizemos 26 shows em 30 dias. Numa boate encontramos um grupo de choro que tinha até violão de sete cordas, que é uma invenção brasileira. Aí o flautista tocou Pedacinhos do Céu, de Valdir Azevedo e Pinguinho de Gente, que fiz para a minha filha. Eu fiquei emocionado. Eles tinha umas duas ou três músicas minhas no repertório. Por isso eu recebia direitos autorais do Japão e não sabia o porquê.





