O NETO DE UMA POETA MAIOR
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de novembro de 2001
Rodrigo Souza Grota<br>De Londrina 
Ele não é escritor. Mas conhece toda a obra da personagem mais ilustre da família. Mais ilustre ao menos no universo literário... O cirurgião plástico carioca Ricardo Strang, há um ano radicado em Londrina, é o neto mais velho da escritora Cecília Meireles, que completaria cem anos no próximo dia 7.
Hoje ele está prestes a completar meia década de vida, mas tinha apenas 11 anos quando sua avó materna faleceu, em 1964. Não teve muito tempo para conviver com a poetisa, mas as imagens que ficaram são lembradas com intensidade. ''Como eu era o neto mais velho, era sempre paparicado. Minha avó era muito severa, rígida no trabalho. Mas com as crianças era sempre muito doce''.
Cecília gostava de levar o neto para passeios por pontos diversos do Rio de Janeiro. ''Aprendi a ler com ela. Ela me fazia olhar para as placas com neon e depois fazíamos jogos com as palavras. Acabávamos brincando de poesia'', relembra.
A escritora aliás adorava viajar. Ricardo comenta que há pouco tempo foi para o Rio de Janeiro visitar uma mostra inaugurada na Academia Brasileira de Letras, ''Cecília Meireles, poetisa viajante'', que foi exposta de 21 de agosto a 14 de setembro. Estavam lá fotos, escritos e desenhos (do seu primeiro marido, Correia Dias, um artista plástico).
Ela conheceu muitos países, produzindo razoável obra em prosa sobre suas viagens. Em seus poemas, Cecília explica o que lhe fascinava na arte de conhecer outras culturas: ''Viajar é uma arte de admirar. É amar loucamente cada aspecto do caminho. É ir em peregrinação, participando intensamente de coisas, de fatos, de vidas com as quais nos correspondemos desde sempre e para sempre. Para qualquer lado que vá, tudo será maior que qualquer sonho''.
Outro costume da escritora era se aventurar pelo mundo dos livros. Sua biblioteca, preservada na casa em que morou a escritora, contém mais de 9 mil volumes. ''E como é uma biblioteca de quem gosta de ler, há livros de todos os assuntos, incluindo, por exemplo, um volume de Goethe no original. Não é uma biblioteca especializada''. Uma questão ainda incerta é se esse acervo de livros se tornará uma instituição. Ricardo diz que a família ainda não decidiu. A casa fica no bairro do Cosme Velho, aquele em que por muito tempo morou Machado de Assis, o mestre de nossa prosa.
A outra faceta da poetisa Cecília, sua fase como educadora, teve suas obras relançadas esse ano pela editora Nova Fronteira. Ricardo, que já leu quase toda a obra poética, diz que está se maravilhando com esses textos. ''Se ela não fosse lembrada por sua poesia, seria certamente um nome de destaque da educação''. Da obra poética, o neto confessa maior encanto por ''Romanceiro da Inconfidência'', versos reunidos em 1953.
Apesar de ser o neto mais velho, o procurador da família acabou sendo um primo que mora no Rio. Mas Ricardo não deixará de comparecer no próximo dia 7 à capital carioca para as homenagens aos 100 anos de sua avó. A Biblioteca Nacional servirá de palco para o lançamento da poesia completa de Cecília reunida pela Nova Fronteira e de um selo comemorativo lembrando a poetisa. Restará apenas um conjunto de versos compostos pela escritora em 1919, intitulado ''Espectros''.
Ricardo conta que esse livro, o primeiro trabalho da poetisa, será publicado em versão fac símile (seguindo o formato do original). ''Não achávamos nenhum exemplar do livro, até que encontramos um bibliófilo (que não quis se identificar) em São Paulo que tinha a obra'', relata. O neto leu o livro e gostou: ''Segue um estilo mais parnasiano, um pouco triste''. Mas ainda não há data confirmada para o lançamento da obra.
Apesar do interesse pelas letras, Ricardo não se tornou um escritor. ''Acho que houve um certo pudor por causa da minha vó, mas uma das minhas tias chegou a ser escritora''. O sobrenome Meireles não foi herdado pois sua mãe o retirou após se casar.
Entre uma das curiosidades que Ricardo revela, ele lembra que por um certo período, logo após o falecimento do primeiro marido da escritora (Correia Dias), Cecília passou por dificuldades financeiras. ''Ela tinha três filhas para criar sozinha e passou a escrever intensamente. Chegou a matricular as filhas em um colégio interno prometendo pagar depois''. Ao casar com Heitor Grillo (que já foi presidente da CNPQ), atingiu razoável estabilidade financeira, não passando mais pelas mesmas dificuldades. Uma frase do neto sintetiza a relação de Cecília com a literatura: ''Ela escrevia com intensidade e paixão''. Que mais seria preciso?


