O negro através da história
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de novembro de 2001
Rodrigo Souza Grota<br>De Londrina 
Ele é ao lado de Vladimir Carvalho e João Moreira Salles um dos melhores documentaristas do País. Realizou obras-primas sendo agraciado com prêmios internacionais e nacionais. Entretanto, seus filmes não são encontrados facilmente nas prateleiras das locadoras. É o caso desse ''O Fio da Memória'' (BRA, 1991, 115 minutos) que a Biblioteca Municipal de Londrina exibe hoje, a partir das 18h30, e com entrada franca, dentro da Mostra Cinema Falado. O filme é de Eduardo Coutinho, o autor de obras-primas de nossa cinematografia como ''Cabra Marcado Para Morrer'' (1984), ''Santo Forte'' (1999) e ''Babilônia 2000'' (2000).
Você não deve conhecer esse filme. É claro, como a maior parte de nossa produção nacional ele foi disponibilizado em VHS, mas foi mal distribuído. Lançado pela Riofilme e Sagres Vídeo, ''O Fio da Memória'' nunca passou na TV aberta, sendo programado poucas vezes no Cinemax, da TVA. É um filme com a assinatura do grande Coutinho, cineasta que iniciou sua obra no começo dos anos 60 e atingiu a maturidade do ''olhar que tudo registra'' na época em que trabalhou no Globo Repórter, entre 1975 e 1984. O estilo do diretor é simplificado: ele busca dos entrevistados a emoção mais sincera e espontânea que puder extrair. Coutinho costuma deixar após a montagem do filme as suas perguntas e não esconde o pagamento que oferece aos protagonistas de seus documentários.
Em ''O Fio da Memória'', ele mostra a trajetória do negro no Brasil desde a chegada dos primeiros escravos, em 1532. A conclusão é triste e alarmante - os negros continuam a serem escravos em sua maioria. Após a abolição da escravatura, em 13 de maio de 1888, Coutinho mostra o que ocorreu com os negros e como a sociedade não lhes forneceu as condições mínimas para se adaptarem à realidade brasileira.
Há momentos grandiosos no filme, como a cena em que uma negra se rebela contra um concurso que premiou uma mulata, não uma autêntica negra. Um branco se aproxima e pergunta: vocês são 51% da população no Brasil, por que não se rebelam? A mulher não responde. Outro atrativo do filme é recontar a história de Gabriel Joaquim dos Santos, artista negro que esculpiu uma espécie de obra-moradia para si mesmo.
Narrado por Ferreira Gullar e Milton Gonçalves, com fotografia de Adrian Cooper e música de Tim Rescala, ''O Fio da Memória'' tenta em quase duas horas contar a história de quase 500 anos de injustiça. Coutinho não conta tudo, mas traz fatos relevantes e de maneira distante. Ele não se posiciona, permite ao espectador tirar as suas conclusões. Para os amantes do cineasta, fica claro o interesse de Coutinho pelo sincretismo religioso, o que iria impulsionar ''Santo Forte'' oito anos depois. Após a exibição de ''O Fio da Memória'', haverá um debate dentro da programação da 16 Mostra Afro-Brasileira Palmares que está sendo realizada em Londrina.


