O Natal é um estado de espírito
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de dezembro de 2018
Célia Musilli <br> Editora da Folha 2 
No Natal, nossos olhos convergiam para as pequenas árvores. Na época, a neve ainda era simulada por pedaços de algodão. Nos anos 1960, no Norte do Paraná, conhecíamos as geadas, a neve nunca tínhamos visto. Mas era fácil imaginar os flocos caindo para tingir de branco os pinheirinhos, que não tinham o luxo das gigantescas decorações que surgiriam bem depois.

Havia sim a magia das renas que também nunca vimos em carne e osso, quem dirá os anjos. Mas eles estavam no alto das árvores tocando trombetas e minha maior alegria era vê-los como os enfeites máximos, que davam o toque final nos pinheiros lá de casa. Alguns tocavam trombetas, outros carregavam faixas dizendo: "Jesus nasceu em Belém." E a mãe contava histórias da noite em que nasceu Jesus, quando se viram mais estrelas no céu e uma delas, a mais brilhante, indicou aos Reis Magos onde estava o Menino.
Naquele tempo, como se diz na linguagem bíblica, os presentes eram mais simples, brinquedos com a humildade dos piões. Aos poucos surgiram os brinquedos mecanizados, movidos à corda, além de bonecas que falavam e faziam xixi. Nunca ganhei uma tão completa, eram inacessíveis à maioria das famílias, mas quase explodi de felicidade quando, ali pelos sete anos, ganhei de minha mãe uma pequena boneca que fechava os olhos. Era loira, de cabelos amarrados com uma fita, tinha um vestido estampado, sapatinhos de borracha, mas a novidade eram mesmo os grandes olhos azuis que se abriam e fechavam. Perdi as contas de quantas vezes a coloquei para dormir.
Essa boneca ainda está comigo. Sem um braço, ela repousa num baú e ainda abre os olhos quando a visito por acaso, remexendo em pertences que fazem parte de uma história de vida. Foi o único brinquedo que sobrou entre os que ganhei na infância. Mais tarde, ainda tive uma boneca Suzy, coqueluche das meninas, e ganhei num concurso uma bola de capotão, de couro firme, que nunca me serviu para muita coisa porque tinha medo dos jogos. O presente que nunca veio foi mesmo o bonecão que chorava e fazia xixi. Era uma beleza ver algumas amigas enchendo o boneco de água, através de uma mamadeira, e um minuto depois o garoto molhava as roupinhas. Era a felicidade proporcionada por pura água de torneira.
Trinta anos mais tarde, tive natais com meus filhos pequenos. Era comum irmos às lojas especializadas para que eles mesmos escolhessem alguns presentes, não todos. A memória afetiva está impregnada de tal forma com essas datas festivas que confesso que, ainda hoje, quando ouço as canções de Natal, meus olhos se enchem de lágrimas, já chorei nas cantatas e nas Lojas Americanas.
O tempo vai nos deixando bobos. Uma bobeira terna como rever o algodão como se fosse neve, acreditar em anjos, cantarolar lembrando os encontros da família, a hora de desembrulhar os presentes, enquanto nas manjedouras, armadas na sala, o Menino continua nascendo para alegria das crianças que ainda aguardam a meia-noite como a hora mágica.
Os filhos crescem, os pais ficam mais velhos, os tios que eram o Papai Noel da infância já não estão entre nós. Mas tive a graça de ver meu tio Cesário alegrando a família vestido de vermelho, com um grande saco nas costas, "entregando o ouro" de que ele era ele mesmo quando falava conosco e a voz revelava sua identidade, mas fingíamos não saber de nada porque a magia havia de continuar. Felizes daqueles que ganharam presentes na infância, que viram a mães guardar e tirar a cada ano das gavetas os enfeites que constroem uma memória cristã tão doce quanto as uvas.
Confesso que o Natal me deixa nostálgica, faz minha alma reencontrar os anjos, ouvir sinos e berros dos carneiros, ver a generosidade nos magos que podem não ser reis, mas proporcionam encantamento a cada Natal a quem tem pouco e a quem tem muito. Porque o Natal não se restringe a presentes, é um estado de espírito. Eu acredito nas emoções que nos tornam melhores nesta data, mais receptivos, mais espiritualizados, porque o grande presente é reconhecer no Menino Jesus toda candura da nossa própria infância, a inocência de quem acredita que a Terra se abre no dia 25 para uma abóbada que nos põe em contato com o céu mais estrelado do que de costume. Feliz Natal, com as luzes reais, alegres, nostálgicas e imaginárias.
E que o espírito de Jesus nos ilumine.


