O Nascimento dos Fantasmas é sobre medo e solidão
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de junho de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 11 (AE) - Um livro nascido do medo da escuridão. Dito assim parece nada. Mas é desse jeito mesmo que a francesa Marie Darrieussecq explica a origem do seu segundo romance traduzido no Brasil, "O Nascimento dos Fantasmas" (Companhia das Letras, 128 páginas, R$ 19). O primeiro, "Porcarias", vendeu muito bem, apesar de nem passar perto do grande sucesso que foi na França, onde teve saída de quase 500 mil exemplares. Além disso, foi traduzido para 29 países. Um best seller, que teve seus direitos comprados pelo diretor Jean-Luc Godard.
Em conversa pelo telefone , Marie confirmou que Godard havia mesmo comprado os direitos para filmagem do livro, mas depois teria desistido do projeto. "Ele declarou que o livro era suficientemente bom e suficientemente ruim para virar um filme", diz, rindo. Ela não sabe por que, depois de tudo pago, o mitológico diretor da nouvelle vague acabou por desistir do projeto. Mas, de qualquer forma, espera que a história da moça sensual que se metamorfoseia numa mimosa porquinha acabe indo para as telas.
Marie não sabe exatamente por que seu primeiro romance publicado agradou tanto aos leitores. "É um livro que se lê facilmente", arrisca. Mas, claro, isso não explica grande coisa. Há um tanto de Kafka na narrativa de "Porcarias". Outro tanto de escatologia e uma sensualidade que às vezes se disfarça sob a forma cômica. De fato, impossível não pensar no escritor checo quando se lê a história da garota fogosa que, de repente, começa a ficar com a pele cor-de-rosa, desenvolve cascos estranhos, um rabicó e um focinho porcino.
Mas, lógico, nada disso explica o êxito. Marie acha que é seu trabalho, próximo ao corpo da personagem que sensibilizou os leitores. A prosa é quase orgânica em seu nível descritivo. "Procurei evitar toda referência psicológica", diz Marie, para quem pouco importa descrever a razão interna para o comportamento da personagem.
Em "O Nascimento dos Fantasmas" a linguagem é outra, o tratamento mais sofisticado, e talvez o destinatário da obra também seja outro. A história trata do sumiço de um marido. Ele chega do trabalho, diz que vai comprar pão na esquina e não volta mais. Tudo se resolve no monólogo da mulher que espera pela volta do homem. Como toda ausência pede uma presença, ela preenche o espaço vazio com os fantasmas de sua vida - daí o título do livro.
Que, aliás, joga com uma evidente ambiguidade. Há dois termos distintos em francês, fantôme e fantasme. O primeiro designa a assombração, a aparição do outro mundo, do além-túmulo. O segundo poderia ser (quase) traduzido por fantasia e faz parte do vocabulário da psicanálise. A escritora fica contente ao saber que não existe esse tipo de distinção em português. "Assim, a ambivalência é preservada", diz.
Porque o livro se refere às duas dimensões da palavra. Sozinha, a narradora será confrontada com seu "eu", como jamais fora na vida. Quer dizer, irá viver plenamente suas fantasias (fantasmes), tentando recolocar algo no lugar do ausente. Mas os fantasmas (fantômes) têm uma presença também física além de mental. São palpáveis, presentes, assustadores. Exatamente como convém a uma obra que é (também) exorcismo de uma fobia de infância.
Além disso, há outra diferença notável com relação ao romance anterior: o nível de elaboração da linguagem é muito maior. "É por causa da personagem", explica Marie. "No primeiro caso, era uma garota inculta que se expressava; no segundo, a narradora é instruída, e isso se revela em seu monólogo interior."
Ficam mais perceptíveis, nesse livro mais recente, algumas das influências literárias de Marie, que ficavam um pouco encobertas no primeiro. Ela é leitora de Claude Simon, mas também de Margueritte Duras, e não hesita em dizer que se socorre de toda a tradição francesa, de Flaubert a Balzac. Talvez um pouco dos contemporâneos, como Boris Vian e Marcel Aymée? "Pode ser, a gente nunca é capaz de medir o grau das influências e acabamos trabalhando como esponjas", admite.
De qualquer forma, os livros de Marie Darrieussecq refletem sempre seu tempo. Em Porcarias há referência direta à animalização social contemporânea. Sob o império da visão economicista do mundo, o ser humano regride na escala, o que confere à história um tom de fábula. Além disso, vários personagens defendem teses racistas, o que não acontece por acaso na França dividida entre os socialistas (Lionel Jospin, primeiro-ministro) e os gaullistas do RPR (Jacques Chirac, presidente da República), espremidos por uma extrema-direita ainda minoritária, porém ativa. Em "O Nascimento dos Fantasmas" há uma análise aguda da solidão, essa chaga social muda, porém tão nefasta quanto a da fome.
No terceiro romance, o recém-lançado "Mal de Mer", ainda sem tradução em português, Marie conta a história de uma mãe que sequestra a própria filha, da qual havia sido separada judicialmente, e a leva para uma cidade à beira-mar. Lá, as duas terão de aprender a conhecer-se e a conviver. Para a crítica francesa, Marie, neste livro, teria se rendido à necessidade de exprimir o mal-estar deste fim de século. "Que remédio?", ela diz. "O escritor não tem escolha, e termina servindo de caixa de ressonância desse tipo de sentimento geral", admite.


