O espetáculo "Berra!", da companhia Livre Teatro, estreou esta semana na DAC - Divisão de Artes Cênicas/ UEL - em Londrina, sob a direção de Luan Valero.

Apoiado na obra “O Rinoceronte”, de Eugène Ionesco, trata-se de um experimento artístico sofisticado, ousado, sustentado por um estudo sério de dramaturgia e corporeidade. Um grupo nasce de uma heterogeneidade de corpos, idades e identidades e passa a compor um tipo de realidade que, dentro do absurdo, tem condição de representação e sustentação de uma teatralidade consistente – visivelmente fruto de bastante estudo.

Diferente de escolas sistematizadas, cuja pedagogia separa as pessoas por “faixas”, níveis ou escolaridade, o grupo se aproxima da vida na própria diversidade do elenco, extremamente comprometido com o que foi fazer em cena. Sobretudo, o grupo se apresenta sem caretice e com disponibilidade corporal; com jogo e relacionamento cênico - características essas que representam uma orientação técnica e artística de qualidade.

Quando se pensa na passagem de um “grupo de estudo” para uma “companhia de teatro”, observa-se um grande passo. Destaca-se a sonoridade das cenas, que traz momentos polifônicos e confusos (que agridem os ouvidos como quem entra inadvertidamente numa multidão e não sabe o que está acontecendo em volta) e a qualidade vocal do grupo, muito competente, mesmo tendendo ao histrionismo – que, na verdade, acaba combinando com a maioria das cenas. A partitura corporal também se insinua com muito estudo da espacialidade e das formas não cotidianas do corpo – não parece movimento requentado, tem frescor.

Imagem ilustrativa da imagem O nascimento de um novo rinoceronte em meio ao absurdo
| Foto: Rei Santos/ Divulgação

Não bastasse tais qualidades, uma correlação do Teatro do Absurdo com a realidade atualíssima da política nacional vai sendo construída na releitura da peça, que traz uma gradativa transformação das pessoas de um grupo social em quadrupedes gigantes e enfurecidos – possível associação ao que passamos na realidade recente, quando pessoas de nosso convívio foram se revelando ideologicamente, comprometendo a naturalidade da vida comum.

Na obra original, a transformação simboliza o conformismo social, a perda da individualidade e a adesão cega a ideologias dominantes. Mesmo solitário e cheio de dúvidas, o protagonista Bérenger decide não se transformar, afirmando sua humanidade como um ato de resistência. Em “Berra!”, a protagonista acaba isolada, presa num cubículo, sufocada pela condição de – em seu grupo social – por ser a única a não aceitar a transformação bestializadora.

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Por fim, acabando nesta cena que tem tudo de absurdo e de realidade, o espetáculo não alivia a condição vivenciada, termina sem eufemismo ou piedade, pois sim, acaba sem esperança. Como a nos alertar a uma análise, a uma consciência e a um desgosto.

Arte é trabalho, é disponibilidade e consciência crítica. Obrigado ao grupo por trazer à cena do mundo um estudo tão acertado, uma peça longa, sem ceder à tentação da facilidade, ao tempo do fast-food ou ao falseamento da dureza da vida artística. Sobretudo, por não se isentar do trabalho, da partitura cênica, da leitura profunda da literatura e da realidade, trazendo renovação e novos diálogos possíveis. Vida longa ao grupo.

* Aguinaldo de Souza é professor do curso de Artes Cênicas da UEL
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