A vibração do elenco da ''Ópera do Malandro'' ganhou o público que lotou anteontem o Teatro Marista, em Londrina, fazendo com que a organização do Festival de Música abrisse um segunda sessão do espetáculo, já que muita gente ficou na fila de espera. O fato é inédito no festival que, nesta 22 edição, confirma seu compromisso com a qualidade, abrindo um viés pouco maior para a música popular.
A versão londrinense da ''Ópera do Malandro'' agradou em cheio ao soar despretensiosa, com um elenco de 26 cantores exibindo ótimas interpretações individuais ou em duos e coros afinadíssimos que sensibilizaram o público. A boa condução do musical, sob a responsabilidade de Regina Luccato, saltou aos olhos e aos ouvidos da platéia, apagando eventuais falhas técnicas ou o nervosismo aparente dos artistas todos alunos do festival que se reuniram pela primeira vez e tiveram apenas dez dias para ensaiar.
Entre os pontos altos, destaca-se o bom uso das vozes na interpretação de canções antológicas de Chico Buarque de Holanda. Com brilho especial apresentaram-se Éric Mago (no papel do malandro João Alegre), Etor Rivero (o poderoso Duran) e Raul Fortes (interpretando o impagável cafetão Max Overseas), todos personagens-cantores da ópera licenciosa que aborda a prostituição e o poder no Rio da década de 40, de forma provocativa e bem-humorada. Entre as cantoras, ressaltam-se as performances de Joyce Cândido e Giely (revezando as vozes para interpretar Terezinha), Anna Caroline, grandiosa ao cantar ''Folhetim'', e Taís Bandeira que arrasou dando voz à fogosa Vitória. Palmas também para Ozório Christován que encarnou Geni alternando o deboche e a angústia do travesti mais feminino da história da MPB.
A diretora e também regente do espetáculo, Regina Luccato, acertou ao privilegiar a expressão vocal sobre a corporal. Exigir dos cantores uma dramatização excessiva soaria forçado. O elenco afinado não precisou mais do que a espontaneidade para reforçar nos gestos a intensidade das músicas de Chico Buarque. Os coros brilharam em momentos em que o público não se conteve, aplaudindo pontualmente o musical que deu certo, graças também ao pianista Marcelo Caldi que confirmou o que Regina Luccato diz no programa do espetáculo: ''nosso piano é nossa orquestra''. E que orquestra!

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