O musical "A Menina e o Vento" é destaque na programação infantil
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quarta-feira, 24 de março de 1999
Por Beth Néspoli 
São paulo, 25 (AE) - Ninguém menos que Maria Clara Machado ficou ansiosa para assistir ao musical infantil "A Menina e o Vento" que estréia sábado no Teatro Cultura Artística, em São Paulo. Ela é a autora do texto que chega ao palco na forma de musical com trilha criada pelo maestro Tim Rescala. Mas não é só. A montagem tem uma característica rara no teatro atual. O elenco e a equipe de criação são o mesmo do musical "Somos Irmãs", inspirado na vida de Linda e Dircinha Batista, um dos grandes sucessos da temporada em cartaz no mesmo local. Ou seja, no palco estarão Nicette Bruno, Suely Franco, Beth Goulart, Cláudia Netto integrando um elenco de 12 atores e atrizes que cantam e dançam dirigidos por Cininha de Paula e Lupe Gigliotti, sob a iluminação criada por Ney Matogrosso.
"Fico muito feliz em saber dessa montagem que eu queria muito ver", falou do Rio Maria Clara, criadora de mais de 24 peças infantis, todas já consideradas clássicos do gênero. Embora não possa viajar para São Paulo, a autora torce para que a temporada estenda-se ao Rio, fazendo o caminho inverso de "Somos Irmãs". "Nosso desejo é fazer também uma temporada carioca", avisa Suely Franco.
"A Menina e o Vento é uma história sobre a liberdade", define Maria Clara. Tudo começa quando os irmãos Maria (Beth Goulart) e Pedro (Freddy állan) acordam o vento (Paulo Goulart Filho) que dormia. Pedro o desafia e é soprado para longe, mas Maria aprende a "ventarolar", ou seja perde o medo do vento. Encantado, ele a convida para um passeio em sua garupa e a leva para conhecer o Brasil.
"Ela viaja pelo Brasil inteiro, deslumbra-se com as cataratas do Iguaçu e assim o vento faz com que ela aprenda a amar o País por meio de seu olhar, o oposto do que ocorria antes
quando suas tias queriam obrigá-la a amar o Brasil e ela achava aquilo chatíssimo", diz Beth Goulart.
Mas enquanto Maria vive sua deliciosa aventura na cacunda do vento, Pedro conta às três tias o que ocorreu e elas entram em pânico, imaginando um sequestro. Para resolver o caso, entra em cena um comandante de polícia metido a galã (Renato Rabelo) e seus dois atrapalhados ajudantes (Marllos Fraga e Orlando Leal).
O humor nasce principalmente das atitudes das tias, três personagens muito especiais: Adelaide (Nicette Bruno), Adalgisa (Marya Bravo) e Aurélia (Suely Franco). "Adelaide é a mais durona delas, ou pelo menos a que tenta ser", informa Nicette. "O seu lado de solteirona aflora quando ela vê o comandante e fica caída por ele, mas logo se recompõe", conta a atriz.
Aurélia pode ser definida como a tia legal, a única que acredita na versão de Pedro sobre o autor do rapto de Maria. "Ela não perdeu o seu lado infantil e fica doida para também viajar na cacunda do vento", diz Suely. Já Adalgisa é uma espécie de maria-vai-com-as-outras, oscila feito aquele brinquedo joão-bobo. "Ora ela é convencida por Aurélia ora por Adelaide, sem jamais conseguir ter uma opinião definitiva sobre nada".
Um radialista completa a confusão. Ao noticiar o andamento do sequestro, ele recebe ordem de prisão do comandante. "A peça foi escrita no período da ditadura militar e isso se reflete no texto", comenta Beth Goulart. Daí as tias tentarem obrigar Maria a amar o Brasil, uma referência ao fatídico slogan - Brasil, ame-o ou deixe-o.
"Ela foge das tias porque recusa aquela disciplina quase militarista, mas vai com o vento em busca da aventura de amar o Brasil com liberdade". Mas a atriz ressalta o fato do texto não ter envelhecido, pelo contrário. "Tornou-se um clássico", afirma. "Com seu talento, Maria Clara fala de forma simples, bem-humorada e poética da liberdade no sentido mais amplo, a liberdade interna, a liberdade do outro e aquela tão comum na criança, que fala sempre a verdade e por isso mesmo às vezes chega a ser cruel, por não saber disfarçar seu sentimento".
Para Nicette Bruno, a peça contrapõe liberdade, fantasia e imaginação a qualquer tipo de atitude repressora e individualista. "Ela transmite coisas positivas e fala da fantasia não como sinônimo de fuga ou ilusão, mas como algo que deve fazer parte da gente, algo que o adulto não pode perder".
O entusiasmo com o espetáculo não elimina o cansaço do elenco, numa dupla jornada de ensaios às tardes e espetáculo noturno. "Cantamos, dançamos e confesso que tenho ficado quebrada esses dias", comenta Nicette. Mas a atriz vê como principal compensação o fato de contribuir para a formação de platéia, levando ao público infanto-juvenil um espetáculo de qualidade, realizado com empenho e seriedade.
Suely Franco, que já ganhou um Troféu Coca-Cola interpretando uma bruxa no infantil "O Mágico de Oz", vê em "A Menina e o Vento" uma oportunidade rara para fazer o que mais gosta no palco: "Cantar e dançar". Quem já viu "Somos Irmãs" sabe que talento não lhe falta para isso.


