Na semana passada, um grupo de crianças e jovens com deficiência visual de Rolândia, Ibiporã, Cambé e Londrina participaram de uma experiência sensorial e ambiental na Fazenda Binimi, em Rolândia. Com a proposta de valorizar a diversidade e a inclusão, uma trilha foi especialmente elaborada para a participação dos alunos. Além disso, os participantes puderam contar com as explicações divertidas e interessantes do pesquisador Paulo Ernani Ramalho Carvalho, da Embrapa Florestas, de Colombo, na região de Curitiba, que veio divulgar a edição em braile do seu livro ''A Viagem da Semente'', que escreveu em parceria com o jornalista Jorge Duarte.
Antes do início do passeio, o grupo se reuniu em um antigo barracão de café para se apresentar e falar sobre a expectativa para o passeio e se divertir com alguns animais empalhados cedidos pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) como o quero-quero, o tamanduá mirim, o macaco prego e um lagarto. Em cada toque, uma infinidade de descobertas. ''Pela deficiência visual, eles têm os outros sentidos muito aguçados e é interessante como usam isso na sua vida'', comentou a professora Solange Gagliotti Algarte, especialista em deficiência visual.
Em um arboreto florestal - coleção de árvores mantida com o objetivo de realizar um estudo comparativo das espécies que melhor se adaptam em determinada região - os alunos puderam perceber a riqueza vegetal que os cercam. Com o apoio de uma corda amarrada entre as árvores que ladeavam o percurso mata adentro, os participantes foram fortalecendo a auto-estima e superando as limitações.
Intercalando o passeio, algumas paradas obrigatórias para ouvir as histórias do pesquisador Carvalho que há 11 anos foi o responsável para que o arboreto se tornasse realidade e reunisse quase 500 espécies de árvores, lembrando que no Brasil há 10 mil espécies. A idéia de montar um arboreto surgiu depois que o proprietário da fazenda, o ambientalista Daniel Steidle, participou de uma palestra com o pesquisador.
''O interessante é que na época o Daniel chegou a escrever para mim dizendo que estava 'sacrificando' um hectare da sua produção de soja para eu instalar o 'meu' arboreto e hoje estamos vendo toda essa beleza aqui. Precisamos definir espécies alternativas para o agricultor usar como dinheiro verde'', afirmou o pesquisador.
Com muito bom humor, o pesquisador - que no livro recebe a alcunha de ''Tio Paulo'' - falou aos alunos da importância dos animais 'cagadores' para a manutenção da diversidade ambiental. ''Estes animas são as 'pernas' da natureza'', brincou. E acrescentou: ''Sem os animais, não teremos a dispersão das plantas''.
Um dos animais abordados foi o morcego. Segundo o pesquisador, dos 100 tipos existentes, apenas três se alimentam de sangue. Como detalhe na sua explicação, contou que duas espécies de morcego são responsáveis pela dispersão dos frutos do guanandi, uma árvore que dá uma madeira excelente para a fabricação de móveis. Com as bochechas cheias das sementes, que vão regurgitando, eles ainda cumprem a função de polinizadores. ''Os morcegos são tão importantes, que 5% das plantas deixariam de existir se eles entrassem em extinção'', destacou.
Pés de palmito juçara ou pupunha foram apresentados aos alunos. Uma árvore de mutamba (espécie originária do México), que tem princípios ativos para evitar queda de cabelo e serve como remédio para emagrecer, além de servir para produzir cachaça e papel também fez parte do roteiro. A sapucaia (espécie prima da castanha-do-Pará) mexeu com a imaginação dos participantes que puderam tocar a famosa 'cumbuca da sapucaia' cujas castanhas são as guloseimas preferidas dos macacos, que muitas vezes acabam ficando com a mão presa do interior do fruto. Depois de aberta, a cumbuca também atrai os morcegos que são levados a ela pelo odor das castanhas. A árvore de tingui, que em língua indígena significa ''efervescente para matar peixe'', rendeu explicações sobre a semente que é tóxica. A cássia rósea (ou 'pink flower') - espécie que também veio do México e chegou ao Brasil pelo Pantanal -, foi a espécie típica da época da colonização de Londrina. O seu fruto, extremamente resistente, após ser lixado pode germinar depois de 200 anos.
O ambientalista Daniel Steidle afirmou que pretende implementar a idéia do passeio ambiental para os deficientes, que também será aberto aos não deficientes. ''Os alunos que enxergam ficarão com os olhos vendados para também terem uma experiência diferente. Acredito que quanto maior a diversidade melhor a integração, assim como é na floresta'', abordou.

Serviço:
- Mais informações sobre as trilhas ecológicas na Fazenda Binimi, que fica em Rolândia, na PR 170, KM 9, pelo telefone (43) 3256-1794. Os passeios são gratuitos. Para adquirir o livro ''A viagem da semente'', de Paulo Ernani Carvalho, contato pelos telefonea (41) 3675-5600 e 3675-5643, ou pelo e-mail [email protected]. O livro em braile custa R$ 35,00 (impressão normal, R$ 14,00).

mockup