O mundo sob a ótica da arte
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de outubro de 2002
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 2 
Confundir arte com decoração, artesanato, ou criação de formas para o deleite ''estético'' é tão comum quanto querer torná-la algo a serviço de práticas político-ideológicas ou colocá-la a serviço do ''social'', simplesmente. Mas uma das possibilidades que a arte vem demonstrando é a de, justamente, ''roubar'' a atenção para uma discussão não só de suas questões formais, como outras, em que as fronteiras que separam o fazer artístico, do filosófico e do científico se alargam, se esgarçam, tornando esses limites cada vez mais tênues e indissociáveis. Afinal, uma arte que não se atenha ao contexto histórico na qual ela é gerada, também estará apartada do próprio jogo de idéias da qual é parte integrante.
Se as conquistas das vanguardas históricas do começo do século passado, como o Dadaísmo, o Futurismo, as Vanguardas Russas, a Bauhaus, etc. foram assimiladas pelos movimentos posteriores como a arte Povera, o Pop e o Conceitual do meio do século em diante, é porque seu programa de ação poética e política se fazia sentir como necessários como confronto ao irracionalismo humano que gerou guerras e destruição de toda natureza como nunca antes visto.
Quem, por exemplo, nasceu por volta dos anos 60, principalmente no interior do país, pode notar o quanto o meio ambiente foi devastado em nome do desenvolvimento e do progresso sem que a distribuição das riquezas acompanhasse tal discurso.
Um caso típico foi a ocupação que se deu no sudoeste paranaense. Ali, até a década de 60 viviam os índios xetás, que foram dizimados por companhias de terras que tinham por ideal ocupar aquela região para o plantio de alimentos, tornando tudo um deserto de latifúndio e monocultura.
Mas o que é que a arte tem a ver com isso, particularmente as artes plásticas e, mais ainda a arte contemporânea? Generalizando e pensando de maneira abrangente, tudo o que diz respeito à transformação da matéria, tem a ver com arte, uma vez que é esta a questão do artista, ainda que com vistas à produção intelectual e espiritual humana sobre o planeta. Desde Cézanne, quase no fim do século 19 é assim: o artista não só observa o mundo, retratando-o, mas também é parte do mundo aquilo que constrói com sua sensibilidade.
Quando se questiona a monocultura, não é só o problema dos desvios que a agricultura tomou para servir ao mercado exportador, mas é sobretudo a prática da coação de idéias que se impõe contra a idéia de diversidade cultural, onde quem não está de acordo é visto como ''marginal'' e perigoso à ''ordem'' estabelecida.
Quando os políticos prometem emprego, desenvolvimento, industrialização e progresso sem levar em consideração a quantidade de indústrias já existentes e que são capazes de fornecer todo tipo de produto que precisamos para o consumo, usando matéria-prima extraída do solo para isso, gerando aquecimento sobre a superfície do planeta, efeito estufa, poluição, aí sim estamos diante de um quadro de séria desordem.
Ainda que de maneira incipiente, os artistas, pensadores, críticos e intelectuais buscam criar mecanismos que tornem suas ações e posicionamentos cada vez mais claros em relação às políticas e às poéticas adotadas em seus setores. Parece que a sedução fácil da fama e do sucesso imediato já não é mais o atributo básico para se sentirem confortáveis no alto de suas posições. Buscando alternativas, recusando ou se contrapondo a modelos vigentes que insistem em tutelar a liberdade, eles agora apontam para uma nova maneira de encarar a vida, em que tudo o que é humano diz respeito à criação artística. Lição esta aprendida desde, pelo menos, o início das vanguardas.
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