Adeus, mundo cruel. Assim pensava Adele (Vanessa Paradis) segundos antes de se jogar de cima da ponte. Salva por um atirador de facas (Daniel Auteuil), eles iniciam um relacionamento em que a cumplicidade é mais do que necessária. Afinal, ela passa a ser alvo do atirador. Ancorado na sensualidade e na beleza, ‘‘A Garota da Ponte’’, de filme Patrice Leconte (‘‘O Marido da Cabeleireira’’), desnuda a personalidade de figuras solitárias, que orbitam pelas ruas de Paris. Sem referências familiares, Adele tem a auto-estima baixíssima, e vive à merce de homens que a descartam rapidamente. ‘‘Comigo as coisas começam ruim e acabam pior ainda’’, revela, durante um interrogatório.
Magnificamente realizado em preto-e-branco, ‘‘A Garota da Ponte’’ não se deixa vencer pela aparência, ou apenas na alegoria visual. O filme carrega o DNA do cinema francês, que abusa da verborragia e mora na filosofia. A essência desses dois seres perdidos, que se tornam talismã um do outro, depura as emoções. O que os une é o prazer no perigo. Um prato cheio para psicanalistas de plantão.
Se há um desnudar do comportamento, Leconte deixa no ar um certo mistério, que capta o interesse pelo inusitado. Daniel Auteuil possui a característica dos grandes atores de cinema, que é a de saber manipular a contenção das emoções. Isso valeu o Prêmio César de melhor ator. Vanessa Paradis transborda erotismo, sua imagem realmente esplendorosa preenche a tela de sensualidade.
Distribuição: Paramount Classics. Duração: 92 minutos.





OUTROS LANÇAMENTOS





ReproduçãoElenco de peso sustenta produção de Zelito Viana que traz à tona a vida do genial compositor brasileiro
Villa-Lobos - Uma Vida de Paixões
Como todo gênio, Heitor Villa-Lobos foi um incompreendido em seu tempo. O cineasta Zelito Viana devassou a vida do grande músico na tentativa de decifrar sua genialidade. ‘‘Villa-Lobos - Uma Vida de Paixões’’, pelo percurso da sinuosidade da memória, evoca momentos importantes da vida do músico. Durante um concerto de gala no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, passado e presente são costurados com o fio da emoção. Para se tornar músico, Heitor Villa-Lobos confronta a violência do pai, a incompatibilidade com a primeira esposa Lucília (que o sustentou durante muito tempo para ele pudesse compor) e o meio cultural colonizado que não aceitava sua música.’’. O diretor escolheu um elenco de peso, com destaque para Antônio Fagundes (um camaleão) e José Wilker. Apenas, Marcos Palmeira (filho de Zelito Viana) não possui estofo para abraçar toda a inquietude do jovem compositor. ‘‘Villa-Lobos – Uma Vida de Paixões’’ inicia um trabalho de arqueologia sobre a obra de um músico desconhecido em seu país.
Lançamento: Europa Filmes. Duração: 131 minutos.

ReproduçãoObra-prima do Tadjiquistão que flerta com o realismo mágico









Luna Papa
Uma história absurdamente bem contada. Assim pode ser definido ‘‘Luna Papa’’. Obra-prima realizada num país tão distante quanto desconhecido – Tadjiquistão – o filme do diretor de nome impronunciável (Bakhtiar Khudojnazarov) flerta com o realismo mágico e descarta definitivamente a previsibilidade. Para se contar uma história fantástica, nada melhor do que o universo familiar cotidiano. O pai viúvo (Ato Mukhamedshanov), a filha de 17 anos aspirante a atriz (Chulpan Khamatova), um filho amalucado (Moritz Bleibtreu) são personagens suficientes para compor situações poéticas e delirantes. A garota é seduzida por um ator e fica grávida. A partir daí, eles invadem teatros e interrompem peças em várias cidades, procurando o suposto pai da criança. O bebê narra a história no ventre da mãe. Numa apresentação de Otelo, o viúvo cansado de esperar pelo fim da peça pergunta na platéia: ‘‘quanto tempo dura?’’. Um espectador, sabiamente, responde: ‘‘Shakespeare é eterno’’. ‘‘Luna Papa’’ é imperdível.
Lançamento: Cult Filmes. Duração: 107 minutos.
Interino

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