O mundo de seres perdidos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de julho de 2001
Francelino França De Londrina 
Adeus, mundo cruel. Assim pensava Adele (Vanessa Paradis) segundos antes de se jogar de cima da ponte. Salva por um atirador de facas (Daniel Auteuil), eles iniciam um relacionamento em que a cumplicidade é mais do que necessária. Afinal, ela passa a ser alvo do atirador. Ancorado na sensualidade e na beleza, A Garota da Ponte, de filme Patrice Leconte (O Marido da Cabeleireira), desnuda a personalidade de figuras solitárias, que orbitam pelas ruas de Paris. Sem referências familiares, Adele tem a auto-estima baixíssima, e vive à merce de homens que a descartam rapidamente. Comigo as coisas começam ruim e acabam pior ainda, revela, durante um interrogatório.
Magnificamente realizado em preto-e-branco, A Garota da Ponte não se deixa vencer pela aparência, ou apenas na alegoria visual. O filme carrega o DNA do cinema francês, que abusa da verborragia e mora na filosofia. A essência desses dois seres perdidos, que se tornam talismã um do outro, depura as emoções. O que os une é o prazer no perigo. Um prato cheio para psicanalistas de plantão.
Se há um desnudar do comportamento, Leconte deixa no ar um certo mistério, que capta o interesse pelo inusitado. Daniel Auteuil possui a característica dos grandes atores de cinema, que é a de saber manipular a contenção das emoções. Isso valeu o Prêmio César de melhor ator. Vanessa Paradis transborda erotismo, sua imagem realmente esplendorosa preenche a tela de sensualidade.
Distribuição: Paramount Classics. Duração: 92 minutos.
OUTROS LANÇAMENTOS
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Villa-Lobos - Uma Vida de Paixões
Como todo gênio, Heitor Villa-Lobos foi um incompreendido em seu tempo. O cineasta Zelito Viana devassou a vida do grande músico na tentativa de decifrar sua genialidade. Villa-Lobos - Uma Vida de Paixões, pelo percurso da sinuosidade da memória, evoca momentos importantes da vida do músico. Durante um concerto de gala no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, passado e presente são costurados com o fio da emoção. Para se tornar músico, Heitor Villa-Lobos confronta a violência do pai, a incompatibilidade com a primeira esposa Lucília (que o sustentou durante muito tempo para ele pudesse compor) e o meio cultural colonizado que não aceitava sua música.. O diretor escolheu um elenco de peso, com destaque para Antônio Fagundes (um camaleão) e José Wilker. Apenas, Marcos Palmeira (filho de Zelito Viana) não possui estofo para abraçar toda a inquietude do jovem compositor. Villa-Lobos Uma Vida de Paixões inicia um trabalho de arqueologia sobre a obra de um músico desconhecido em seu país.
Lançamento: Europa Filmes. Duração: 131 minutos.
ReproduçãoObra-prima do Tadjiquistão que flerta com o realismo mágico
Luna Papa
Uma história absurdamente bem contada. Assim pode ser definido Luna Papa. Obra-prima realizada num país tão distante quanto desconhecido Tadjiquistão o filme do diretor de nome impronunciável (Bakhtiar Khudojnazarov) flerta com o realismo mágico e descarta definitivamente a previsibilidade. Para se contar uma história fantástica, nada melhor do que o universo familiar cotidiano. O pai viúvo (Ato Mukhamedshanov), a filha de 17 anos aspirante a atriz (Chulpan Khamatova), um filho amalucado (Moritz Bleibtreu) são personagens suficientes para compor situações poéticas e delirantes. A garota é seduzida por um ator e fica grávida. A partir daí, eles invadem teatros e interrompem peças em várias cidades, procurando o suposto pai da criança. O bebê narra a história no ventre da mãe. Numa apresentação de Otelo, o viúvo cansado de esperar pelo fim da peça pergunta na platéia: quanto tempo dura?. Um espectador, sabiamente, responde: Shakespeare é eterno. Luna Papa é imperdível.
Lançamento: Cult Filmes. Duração: 107 minutos.
Interino


