O multiplicador de idéias
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de dezembro de 2000
Célia Musilli De Londrina 
Sou um fazedor de coisas, assim se define o cidadão, jornalista e compositor Bernardo Pellegrini que assume a Secretaria de Cultura de Londrina na gestão de Nedson Micheleti.
Aos 42 anos, o londrinense que sempre teve uma relação estreita com a cidade chega à secretaria disposto a promover mudanças e sem receio de enfrentar o desafio de colocar nos trilhos um projeto ousado, através da Rede da Cidadania, para integrar a produção cultural de Londrina num intercâmbio de arte, idéias e gestões.
A relação de Bernardo Pellegrini com a cidade se intensificou no início dos anos 70 quando, aos 14 anos, foi estagiar na TV Coroados. Depois deu os primeiros passos de repórter no lendário jornal Panorama que, no período da ditadura, trouxe para a cidade profissionais da linha de frente da imprensa nacional, exilados aqui para criar um jornal com idéias de vanguarda que entrou para a história.
Passado o período político mais conturbado, os jornalistas que fizeram de Londrina seu porto seguro voltaram para os grandes centros, mais especificamente para São Paulo, e Bernardo Pellegrini, com 19 anos, foi atrás. Lá trabalhou na Folha de S.Paulo, no Globo, fez free-lancers para o Estadão, para as revistas Status e Isto É. Conviveu com feras do jornalismo como Tarso de Castro, Cláudio Abramo, José Trajano, de quem foi repórter na editoria de esportes da Folha de S. Paulo. Depois começou a produzir publicações alternativas, entre elas uma revista que enfocava o projeto Jica uma ocupação polêmica dos espaços da agricultura no cerrado de Minas e Goiás por empreendedores japoneses em parceria com o jornalista Paulo San Martin.
Apesar da repressão, os anos 70 foram um período maravilhoso de efervescência nas redações lembra Pellegrini que, depois de produzir e perambular pela capital paulista, voltou para Londrina literalmente tomado pela idéia de criar um jornal independente. Aqui contribuiu para criação da cooperativa de jornalistas e fez uma série de reportagens para o jornal da entidade enfocando, entre outras coisas, o exôdo rural do Norte do Paraná, que perdeu neste período dois milhões de habitantes, uma ferida histórica.
Mas foi no jornalismo cultural que Bernardo Pellegrini encontrou definitivamente sua trincheira. Em 1974/75, em Londrina, ele integrou a equipe da página cultural da Folha de Londrina, um projeto chamado Arte e Comunicação. A Folha reunia na redação bons profissionais da área. Bernardo cita Joana Lopes, Linda Bulik e Oswaldo Diniz: Um precursor de tudo o que Londrina tinha de moderno, no jornalismo, na televisão. Só mais tarde, em 1977, surgiu o Caderno 2, criado pelo próprio Bernardo e pelo cartunista Jota, que respondia pelo projeto gráfico a Folha tinha Walmor Macarini na chefia de redação. O caderno nascia carregado de idéias novas. Uma peculiaridade de Pellegrini que sempre apostou num jeito diferente de fazer as coisas e, além do jornalismo, tem na música sua grande paixão.
Ele conta que é herdeiro de uma vocação que sempre fez de Londrina uma cidade diferente. Aqui, nos anos 60/70 existia um cenário de cultura impressionante, com os festivais de teatro, de música, um bando de pessoas querendo criar, fazer as coisas diz.
Neste meio efervescente, ele foi aperfeiçoando o que mais gosta de fazer na vida: jornalismo e música. O violão ele aprendeu a tocar com o irmão que fazia parte do clube dos seresteiros e de choro de Apucarana e com o tempo passaria a compor demonstrando uma pluralidade de atitudes que é sua marca registrada. Nos anos 80, quando o pensamento da esquerda ortodoxa já tinha deixado de interessá-lo, conheceu o terapeuta Roberto Freire, autor de livros revolucionários como Ame e Dê Vexame, Cléo e Daniel, Coiote. O que vislumbrou então era a possibilidade de viver a liberdade nas relações cotidianas, sem autoritarismo, o que tentava colocar em seu ambiente de trabalho, na família, entre amigos, por onde passava. O resultado desta experiência de crença nas relações humanas e nos vínculos afetivos ele depositou no livro O Almanaque do Amor, que escreveu com a jornalista Maria Angélica Abramo, entre 1987 e 88, com programação gráfica de Jota. Neste período, ele já tinha entrado e saído da Folha de Londrina sete vezes, sempre deixando um projeto ousado de jornalismo. Em uma de suas passagens pela redação, foi editor do Paraná Norte, um título lançado pela própria Folha, a primeira experiência de jornal popular da cidade.
Em 1990, Bernardo resolveu fazer música profissionalmente. Voltou para São Paulo e produziu a fita Humano Demais com composições próprias ou em parcerias. Em 95, veio a segunda fita, depois transformada no CD Dinamite Pura, fez shows com o grupo O Bando do Cão Sem Dono nos palcos, ruas e praças da capital paulista. Em 1998 chegaria ao segundo CD, Quero Seu Endereço, e, de volta a Londrina, fez o Cabarezinho, evento direcionado para os shows e a diversão noturna que deu a Londrina três dias de apresentações musicais.
A experiência profissional no jornalismo e na música deu a Bernardo a abrangência de idéias e ações que ele pretende imprimir em seu trabalho na Secretária de Cultura. O fazedor de coisas ocupa a partir de agora um cargo público e deve regular a ótica da cultura dentro de um ângulo desburocratizado, plural e sensível. Ele nunca deixou por menos.
Leia a seguir a entrevista que Bernardo Pellegrini concedeu a Folha 2, com a participação dos jornalistas Jackeline Seglin, Ranulfo Pedreiro, Marcos Losnak e Célia Musilli.


