A edição 2001 do Festival Internacional de Londrina (Filo) está agendada apenas para maio, entretanto, já tem projeto em andamento na cidade. É o caso do trabalho da atriz mineira Bya Braga com os assentados da comunidade Dorcelina Folador, de Arapongas. Ela está em Londrina desde 21 de janeiro coordenando um projeto de teatro com um grupo de 19 pessoas com idade entre 12 e 60 anos. O resultado será apresentado junto com os Projetos de Maio. Em entrevista coletiva, ontem, Bya Braga e integrantes do grupo falaram do processo e das expectativas.
No ano passado, o mesmo assentamento participou do Filo através da Oficina de Linguagem Audiovisual que resultou em um vídeo sobre o Movimento Sem-Terra. Agora é a vez do teatro. Com uma experiência de 15 anos, Bya Braga transitou por diversos caminhos na área teatral. Paralelamente ao trabalho de atriz, ela integrou vários projetos especiais interligados ao teatro. Participou, por exemplo, como pesquisadora voluntária em um projeto de psicodramaturgia. O grupo trabalhava o emocional aliado ao teatral com pessoas consideradas psicóticas. ‘‘Essa foi minha primeira descoberta de trabalho com populações diferenciadas e que me educou para ter um olhar mais apurado sobre isso’’.
Mestre em semiologia teatral e professora de artes cênicas da Universidade Federal de Minas Gerais, Bya Braga busca desenvolver um trabalho apoiado nas histórias e na rotina das pessoas da comunidade, com o intuito de levar ao público externo uma síntese da vida no assentamento. ‘‘Aliado a isso, vamos usar o texto ‘A Padaria’, um fragmento de Bertold Brecht’’, conta. ‘‘É como se fosse uma mistura entre arte e conhecimento’’, completa.
O grupo está passando por várias etapas de preparação. Na primeira, Bya Braga buscou trabalhar com a comunidade o olhar de reconhecimento e a visão de arte. ‘‘Através desse olhar encontramos pessoas oprimidas pela situação de luta e trabalhamos isso usando técnicas corporais e vocais’’.
Na segunda fase, a coordenadora colocou os atores em contato entre si através de jogos aparentemente lúdicos, além de discutir questões específicas e fazer um apanhado histórico sobre o teatro. Na fase atual, Bya Braga está buscando poetizar a movimentação, trabalhando o ser humano em cena. ‘‘A nossa meta é fazer um trabalho artístico, não no sentido totalizador. Mas, através dele, fazer perguntas e ser uma forma de conhecimento’’, comenta. Ela também explica que vem tentando fortalecer entre seus atores o saber contar histórias, sem impor a eles o texto, já que alguns estão se alfabetizando no processo.
Para o integrante Luiz Ubaldo, 36 anos, a experiência tem sido importante para a comunidade até para o aprimoramento do que eles chamam de ‘‘mística’’. Trata-se de uma rotina incorporada à vida da comunidade que inclui um encontro semanal onde se realiza um ritual através da representação. ‘‘Em círculo, eles fazem a representação de fatos e situações que são importantes para eles, mostrando sua realidade. É uma semente e isso é o sentido da arte para mim’’.
A expectativa do grupo é estrear e poder viajar com a montagem para mostrar a realidade do MST. ‘‘Muitas vezes as pessoas conhecem só o que a imprensa passa, mas não sabe a realidade que vivemos, as nossas dificuldades’’, argumenta Silvânia Godoi, 23 anos, outra integrante do projeto.
O Filo 2001, orçado em R$ 2.050 milhões, está em fase de captação e busca investidores para os projetos apresentados às Leis Municipal e Federal de Incentivo à Cultura. A diretora do Filo, Nitis Jacon, antecipa que o conselho assessor da Ámen (Associação dos Amigos da Educação e Cultura Norte do Paraná) se dispôs a ampliar o espectro de possíveis patrocinadores do festival. ‘‘Isso significa, além da manutenção do Filo, que a sociedade está assumindo o festival como um patrimônio da comunidade’’. A programação completa do Filo 2001 deve estar fechada na segunda quinzena de março.

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