Quem vai a Xian quer ver o Exército enterrado de soldados de terracota, no mausoléu de Qin Shihuangdi, datado de mais de 2 mil anos, e tão famoso quanto a Grande Muralha. Vou e volto de táxi para ficar mais livre.
Qin Shihuangdi foi o primeiro imperador da China. Entronado em 246 antes de Cristo, unificou o país, impondo uma moeda e uma escrita únicas.
A fim de realizar os grandes projetos do seu império, Qin Shihuangdi instituiu trabalhos forçados. Foi tirânico. Consta que os palácios do seu mausoléu tinham paredes incrustadas de pedras preciosas e que os seus construtores foram todos enterrados vivos para não revelar os seus segredos.
O Exército foi descoberto em 1974 por camponeses que cavavam um poço e casualmente encontraram uma fossa com milhares de soldados de terracota. Depois, acharam mais duas. A primeira mede 210 metros de este a oeste e 60 metros de norte a sul.
Tem paredes que formam os corredores, onde ficavam os 6 mil guerreiros-soldados, arqueiros, oficiais e generais. A segunda fossa continha mil guerreiros e a terceira, que parece ser o posto de comando das outras fossas, 68 soldados e uma carruagem.
O que mais surpreende é o realismo das esculturas e o fato de cada uma ser inteiramente diferente da outra. Os homens, chineses ou mongóis – com os olhos puxados ou não, os bigodes para baixo ou para cima – são todos belos, porque, para integrar o exército do imperador, eram escolhidos em função do seu aspecto físico.
Depois do primeiro impacto, as questões se multiplicam. Como foram feitas as esculturas e como é possível que sejam todas diferentes umas das outras? A resposta para essa questão eu encontro falando com um guia do lugar. O tamanho delas varia de 1,70m a 2,10m e cada uma – apesar de oca – pesa aproximadamente 150 quilos. São diferentes porque foram feitas por diferentes artistas e, de um para o outro, o molde diferia.
Com a arma que os guerreiros seguravam na mão, o que aconteceu? O mesmo guia explica que, depois da morte de Qin Shihuangdi, as armas foram roubadas pelos seus inimigos.
E por que os guerreiros todos são tão femininos, tão sorridentes? Essa questão fica sem resposta. Resta olhar maravilhada para os homens de terracota que, pela fisionomia, fazem pensar nos homens da rua – de quem, aliás, aqueles são os ancestrais imaginários.
E as perguntas continuam a aflorar. O que levou o imperador a imaginar o exército de terracota? Como pôde concebê-lo aos 15 anos e depois passar 38 anos, o resto da sua vida, executando a obra imaginada?
Indago e concebo algumas hipóteses. Para os chineses de então, a esta vida se seguia uma outra, subterrânea, e o imperador não quis deixar de ser, na segunda vida, o que ele foi na primeira. Fez o exército porque, só através deste, podia se imortalizar como imperador.
Seja como for, sua obra expressa de forma hollywoodiana o desejo de ser imortal. E, de tão enigmática, torna inesquecível Qin Shihuangdi, que foi o primeiro imperador da China, por ter unificado o país, mas ainda porque soube fazer vigorar o enigma, um dos recursos privilegiados do poder.

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