Obras do escritor mineiro Sebastião Nunes, como ‘‘História do Brasil’’, começam ser publicadas comercialmente. O autor fala com exclusividade à Folha2
O Brasil possui muitos artistas inovadores espalhados por seu território. Por motivos diversos, a maioria permanece exilada, desprezada pela grande mídia e desconhecida do grande público. O escritor e artista gráfico mineiro Sebastião Nunes seria um deles.
Residindo na cidade de Sabará, interior de Minas Gerais, possui uma obra inquieta pautada pela inventividade. Sua produção satírica possui características demolidoras. Consegue ser, ao mesmo tempo, erudito e debochado. Um humorista semelhante à estirpe de Marcel Duchamp e Millôr Fernandes.
Mesmo com um sólido trabalho, desenvolvido nos últimos 30 anos, seus livros nunca foram lançados em edições comerciais. Publicou seu primeiro título, ‘‘Última Carta da América’’, em 1968, com dinheiro do próprio bolso. Custeou, com a ajuda de amigos, todos seus livros posteriores. Para isso criou sua própria editora com o sugestivo nome de Edições Dubolso.
Mas esse quadro começa a mudar. Agora, aos 62 anos de idade, começa a ver suas obras publicada em edições comerciais. A editora paulista Altana acaba de lançar ‘‘História do Brasil’’, livro publicado originalmente em 1992, onde Nunes satiriza a história do Brasil através seus principais personagens. A Altana promete republicar todos os livros do escritor até o ano 2001. Nos próximos meses serão lançados ‘‘Somos Todos Assassinos’’, uma ficção sobre a publicidade, e ‘‘Decágono da Classe Média’’, uma sátira de classe social.
A seguir, em entrevista à Folha, Sebastião Nunes fala de ‘‘História do Brasil’’ e de sua obra como um todo. A seguir os principais trechos da entrevista que Sebastião Nunes concedeu à Folha2.
As comemorações dos 500 anos do descobrimento trouxeram às livrarias centenas de obras sobre a história do país. ‘‘História do Brasil’’ possui um diferencial marcante em relação a outras obras, trabalha com ficção (literatura) e realidade (história) num mistura inventiva, crítica e satírica. Onde termina a ‘‘história’’ e começa a ‘‘ficção’’?
Eu diria que o livro é, no todo, uma tentativa de apreender o Brasil atual da única forma possível: pela bagunça, pelo irreal, pelo escracho e pelo escroto. Euclides da Cunha fez em ‘‘Os Sertões’’, a partir da tragédia de Canudos, uma história do império. Gilberto Freyre fez em ‘‘Casa-Grande & Senzala’’, botando o dedo no nariz dos poderosos, uma sociologia da república dos coronéis e latifundiários. Seguindo o modelo dos dois, tentei fazer uma dissecação histórico-ficcional deste extraordinário país de mau-caratismo, corrupção e canalhice. É ficção? É história? Eu diria que é tudo isso e mais ainda: uma visão escatológico-humorística deste país que só não é pura ficção porque é pura realidade.
Qual era seu principal objetivo quando pensou em escrever ‘‘História do Brasil’’?
Em termos literários, o principal objetivo foi o de satirizar uma irrealidade histórica. Para isso, nada melhor que tomar como referência nosso passado, nosso presente e até nosso futuro, presente em muitos verbetes. E, para conseguir isso, nada melhor que misturar alhos e bugalhos, numa puta salada, sem qualquer tipo de lógica, método, coerência e sentido.
O livro foi escrito há dez anos. O que mudou de lá para cá, tanto em relação a farsa da cultura de massa pautada pelo lucro econômico, quanto à política institucional igualmente pautada pelo lucro?
Costumo dizer que desde 1970, datação um tanto fluida mas razoável historicamente, vivemos mergulhados na mais terrível ditadura que o mundo já viu: a ditadura da TV. Durante 30 anos, toda a população brasileira (e talvez a de todo o mundo, com o agravante de que somos um país de analfabetos) foi obrigada a engolir o que os donos do poder cozinhavam para ela. Quase tudo mentira, é claro. Quase tudo no interesse deles, os poderosos, é claro. Vivemos 30 anos na mais negra Idade Média. Mas as coisas parecem estar melhorando, pelo menos para as crianças de hoje, porque elas têm mais opções, e não ficam mais obrigadas a engolir o que uma única emissora de TV disse ser verdade, ou cultura, ou arte, ou política, ou seja lá o que for, durante 30 anos.
‘‘História do Brasil’’ possui como subtítulo ‘‘novos estudos sobre guerrilha cultural e estética que provocaçam’’. O que seria essa ‘‘guerrilha cultural’’ e como seu trabalho se coloca nesse sentido?
Sou um apaixonado pela idéia de guerrilha, a forma ideal de luta dos fracos contra os poderosos, provavelmente tão velha quanto a concentração (que sempre significa abuso) de poder. O maior guerrilheiro do mundo antigo, que abalou as estruturas do então poderosíssimo império romano, foi Espártaco, que fracassou, é claro. O maior guerrilheiro do século XX foi Che Guevara, que também fracassou, é lógico. Pois o sonho do guerrilheiro é desencadear uma revolução permanente e sem dono. Sonho magnífico mas irrealizável pelo mediocridade do ser humano médio. Transpondo isso para o campo cultural, guerrilha significa ‘‘atirar de baixo para cima’’, provocar os ‘‘poderosos culturais’’, os que controlam e ditam as normas culturais. E controlam por que? Porque são mais espertos, mais oportunistas, mais coniventes, mais acomodados. Em resumo: menos ‘‘guerrilheiros’’.
Existe uma postura iconoclasta nas páginas de ‘‘História do Brasil’’. Há um zombamento crítico da realidade absurda que a história oficial ergueu, ou mesmo ‘‘ficcionou’’. Em seu ponto de vista, quais os grandes sujeiras que a chamada ‘‘cultura brasileira contemporânea’’ traz em seu interior?
Vejamos. Quem são os poderosos relacionados com cultura no país (e no mundo, e em todos os tempos, sejamos honestos)? Os ‘‘políticos’’, no pior sentido da palavra, quase sempre. Gente que, no dizer do sociólogo Veblen, ‘‘vive de extrair da população seus meios de subsistência’’. Não se trata, de forma alguma, dos ‘‘cidadãos’’, dos responsáveis pela ‘‘pólis’’, com desejavam os gregos, mas principalmente dos espertos, dos que barganham sem vergonha. Então, não se trata exatamente da ‘‘cultura brasileira contemporânea’’. O mesmo verme corrói a cultura desde que a cultura existe. É o verme do oportunismo político e cultural. Mas também é certo que, quanto mais pobre e analfabeto o país, pior a ‘‘política cultural’’ desse país, exatamente o caso do Brasil, um país paupérrimo, entregue às baratas do oportunismo. A sorte nossa é que temos grandes criadores, que estão muito acima da ‘‘cultura oficial’’. Esses, sim, fazem nossa cultura: múltipla, rica, intensa – e sem depender da cultura oficial.
Suas obras trabalham com uma interação entre literatura e artes gráficas – esse parece ser uma das aspirações das ‘‘vanguardas’’ artísticas do século XX. Como foi seu trajeto por esse caminho?
No meu caso, não parti de uma proposta teórica, mas de pura prática. Eu desenhava, pintava, fotografava, era publicitário, experimentava textos para teatro, escrevia ficção – e tudo ao mesmo tempo. Só fui descobrir exatamente meu caminho quando experimentei poesia. E, depois de dois ou três anos de desconforto, achei meu caminho na ‘‘intersemiologia’’, digamos assim, ou seja: na mistura de tudo. Uma tendência que, por coincidência, é bastante atual, isto é, está muito ligada ao século XX. Daí que posso responder com uma pergunta: acaso ou necessidade?
Você é um autor conhecido e respeitado dentro da literatura brasileira. Mesmo assim ainda não teve sua produção publicada por nenhuma editora comercial. Existe uma ‘‘marginalização’’ de sua obra ou o mercado editorial não está interessado em invenções, ousadias, despudores e outras coisas?
Não houve marginalização. Olhando para trás, reconheço que houve até certa boa vontade com algumas coisas que fiz. Tenho livros pavorosamente mal feitos, em termos visuais, é claro. Continuo gostando de tudo que escrevi. Mas não de tudo que ‘‘colei’’ ou ‘‘desenhei’’ ou mesmo ‘‘diagramei’’. Fiz bobagens tremendas, um pouco por falta de conhecimento técnico, muito por falta de grana. Sempre fiz meus livros por conta própria, com ajuda de amigos, de modo que nunca pude experimentar muito. Daí os repetidos e inevitáveis desastres. Mas, por outro lado, é preciso reconhecer que propus idéias bastante novas, que as editoras convencionais não podiam entender. E, também, que muita invenção é uma arma de dois gumes: você corre o risco de fazer besteira (fiz muitas) e de não ser entendido (o que também aconteceu muitas vezes).
A Editora Altana promete republicar, em nível comercial, todas suas obras até o ano de 2001. Isso representaria que Sebastião Nunes, após décadas de isolamento em relação ao grande público, estaria prestes e ser descoberto e apreciado por uma maior número de leitores?
Vou ser franco: meu trabalho não é fácil, tem mesmo um lado escatológico (tanto no sentido profano quanto no religioso) difícil de ser apreendido. Não sou um poeta sentimental, um autor choramingas, nem um escritor de textos digeríveis, tipo romances históricos, esoterismos baratos, auto-ajuda, leitura amena ou divertida, essas coisas. De jeito nenhum. Reconheço que meu texto é difícil, muito elaborado, cheio de referências cruzadas e alusões, só entendidas por leitores inteligentes e cultos (no sentido mais amplo do termo). Nunca quis abrir mão disso. Por outro lado, decerto que o público vai crescer, pois os livros estarão em livrarias de todo o país, ao alcance de todos. Mas não tenho a mínima vontade de ser lido por gente desinformada ou incapaz de entender que literatura, afinal de contas, é uma longa divagação sobre tudo e sobre nada. Que literatura é, acima de tudo, o constante questionamento das linguagens, isto é, da matriz radical do conhecimento humano.
• ‘‘História do Brasil - Novos estudos sobre guerrilha cultural e estética de provocaçam’’ de Sebastião Nunes, apresentação de Sérgio Sant’Anna, Editora Altana, 224 páginas, R$ 28,00.

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