O monstro sagrado está adormecido
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de setembro de 1998
Antônio Mariano Júnior 
Levemente inclinado para o funk do que tradicionalmente para o jazz, Djavan retorna à cena musical com Bicho Solto, o XIII, que como o próprio nome indica é seu 13º disco. Até aí nada de mais, já que o cantor e compositor (e por que não poeta) alagoano sempre flertou descaradamente com o pop. E esse namorico com fortes intenções matrimoniais até rendeu momentos interessantíssimos em que Djavan, iluminado, imprimiu dignidade e sustança ao universo pop tupiniquim feito quase sempre de conceitos e tendências mal copiados. Mas o que se percebe em Bicho Solto, o XIII é um Djavan sem muita inspiração. Um Djavan sem muito fôlego que tenta - e não consegue - fugir de clichês, alguns criados por ele mesmo.
Parido sob a luz da dança, pelo menos esse parece ser o conceito, o disco chega sem carisma e predicados maiores. As melodias ainda são cheias de meandros harmônicos muito embora não se apresentem vigorosas. Os arranjos, mesmo um tanto quanto convencionais para um disco audivelmente pop, conseguem encobrir a lassidão melódica de composições.
É nas letras, porém, que há demonstração explícita da falta de fôlego djvaniano. Os amores unilateriais e suas consequentes súplicas novamente servem de mote para a maioria das canções do disco. Em outros trabalhos Djavan, mesmo variando sobre o mesmo tema, conseguia extrair algo de criativo e muitas vezes disparar frases fatais ou destilar poesia do começo ou fim.
Em O Bicho Solto, o XIII é preciso mergulhar bem fundo num mar de filosofias baratas para garimpar pérolas. Claro que cada um entende e expressa o amor à altura de suas capacidades intelectuais. Mas há alguns versos bobinhos que não estão à altura de um sujeito sensível e inteligente como Djavan. Tipo: Vem me dar teu calor/Que eu te dou meu carinho/ Como faz a flor com o beija-flor/ Ou o pão como o vinho ou Eu não sei viver sem ela/ assim, um simples talvez me desespera/ ninguém pode querer bem sem ralar/não há nada o que fazer/ amar é tudo. Hum!!
A maioria das 12 faixas é assinada por Djavan. Das composições solos, há uma aqui ou ali que causa alguma sensação ou vontade de ouvir e ouvir e ouvir. A faixa de abertura, Eu te Devoro, é um bom exemplo de que se umas e outras são uma espécie de manual de auto-ajuda sentimental, há um Djavan mais ou menos afiado.Passou também tem lá seus encantos.
Agora, incluir uma releitura de Meu Bem Querer só por ser tema de abertura de certa novela global soa apropriada se vista pela ótica do chamariz comercial mas desnecessária do ponto de vista estético. Por mais bela que seja, a verdade é que a canção já saturou, encheu, deu o que tinha que dar. E o duro é que a versão anos 90 de um dos carros-chefes de Djavan, não fosse pelo esplendor global que a cerca, não teria a dizer a que veio.
A grande sacada do disco se concentra na inusitada parceria de Djavan com Gabriel, o Pensador. Ambos compuseram A Carta. E foram felizes na escrita dessa correspondência musical, um funk-rap coberto com as peculiaridades sonoras de Djavan. A canção o salva do mico, por exemplo, de cantar em inglês, três faixas depois, na insípida Be Fair, de Flávia Virgínia. Que vem a ser sua filha.
Ah, sim, vale a pena dar uma ouvida em Retrato da Vida, feita em parceria com Dominguinhos. No mais, Bicho Solto, o XIII pouco acrescenta à discografia desse monstro sagrado da MPB. Até desperta curiosidade pelo fato de vir com uma grife festejada. E mesmo quem consome grifes certamente não vai deixar de constatar que a nova coleção desse estilista musical está mais para a linha prêt-à-porter do que para o glamour da alta-costura.


