O momento de um monumento
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de janeiro de 2001
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha2 
Foi no meio do calçadão, na rua, em forma de lixo, isopor quebrado vagando ao vento, que algo parecido a uma escultura rolava. Barrado pelo mármore negro da coluna da loja o objeto se apoiou e a única coisa que parecia faltar a essa obra de arte (?) era estipular seu valor: o preço da loja mais o preço da peça, talvez. Uma não interessaria sem a outra, mesmo. Não haveria como tirá-la dali e seu efeito permanecer o mesmo; nem em coleção particular, nem em museu, nem em outro momento. Seu lugar era aquele, seu interesse residia em ser resíduo de festa, desperdício de matéria, sobra industrial.
Se uma exposição de obra de arte não era o caso, pelo menos valeria a pena perguntar à essa esfinge, melhor, à máscara sem rosto desta esfinge dita realidade, contorno, meio, contexto, enfim, perguntar ao bloco roído o por quê de sua forma escultórica e se alí poderia haver algo que lhe valesse significado.
Não importa parecer-se ridículo nestas horas, quando em verdade trata-se de viver a realidade, não só compreendê-la. Além do mais, havia tempo, era feriado nacional, comércio fechado. Se não fosse assim o bloco não estaria vagando no meio da rua, nem ninguém com pensamentos leves e flutuantes, cabeça nas nuvens, depois de uma noite de festas, para prestar atenção àquilo.
Alice Ruiz já disse em forma de hai-hai que é uma viagem, ficar aqui, parado. E, às vezes o assunto vem assim, inteiro, dentro de uma tarde ensolarada onde as formas roídas ao acaso de um pequeno bloco mostrando sua constituição interna (sagu branco grudado), junto ao que sobrou de suas formas moldadas - úteis na proteção de eletrodomésticos -, nos trazem a idéia de uma escultura moderna, talvez um desses monumentos pomposos, que necessitam de um sistema de arte, produção, mídia, galeria, espetáculo, show, sucesso, imagem e tudo o mais que faz lembrar que a mercadoria tem seu valor, antes de tudo, vinculado ao fetiche. Talvez porque seu significado venha deste tipo de discurso, mas querendo dizer exatamente o inverso.
Um monumento tem que durar no espaço-tempo até que a estrutura que lhe deu origem se transforme em outra coisa. Só podemos pensar o poder como lugar transitório se aceitarmos a finitude dos eventos como regra, sejam elas de que ordem forem dentro do âmbito mais amplo do entendimento da palavra CULTURA. Assim o bloco de isopor branco jogado no meio da rua junto com outros pedaços de isopor, embalagens, sujeira que ainda não foi limpa, pode nos ensinar muito mais sobre cultura do que muitas exposições de pintura ou teses acadêmicas.
E, na clareza do meio-dia, jogado na cidade, aquela sobra de um dia de intenso comércio se transforma em totem sagrado de valores perdidos. Algo pelo qual ninguém assumirá responsabilidade. Será varrido posteriormente se não chegar antes à boca do bueiro para entupí-lo. Escultura moderna. Monumento precário ao sabor do vento. Nenhum evento. Só a memória para guardar sua marca, sua passagem, registro de alguém em trânsito, em transe, passando por alí. Tudo tornado sobra, restos, lixo. Coisas aparentemente sem valor e sem significado, mas que não passaram desapercebidas desde o início da arte contemporânea, como, por exemplo em A noiva despida pelos seus celibatários, mesmo ou O Grande Vidro (1915-1923) como ficou sendo chamado, de Marcel Duchamp, que incorporou a poeira depositada sobre seu trabalho enquanto o confeccionava. Ou de um fotógrafo como o brasileiro Vik Muniz que, no registro do resíduo, constrói suas fotos a partir de bitucas de cigarro, confetes e serpentinas amassadas e pisadas, tampinhas de cerveja, dispostos de tal modo que, depois de um primeiro olhar o espectador começa a perceber contornos de crianças de rua no meio da imagem, como em uma de suas séries, intitulada Consequências (1998). Coisas que apesar de serem continuamente jogadas para debaixo do tapete, para serem esquecidas, insistem em nos revelar as pistas de nosso próprio destino.
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