O moderno tabuleiro da baiana
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de dezembro de 1998
Antônio Mariano Júnior 
Tá, tá certo, ela falou, prometeu, disse que gostaria, enfim declarou que em seu próximo disco haveria mais espaço para os compositores da nova geração - Adriana Calcanhoto, Lenine, Chico César, Zeca Baleiro entre outros. Com exceção de Adriana, na regravação de Esquadros, e Carlinhos Brown nenhum outro compositor emergente deu o ar da graça em Aquele Frevo Axé (BMG), 23º disco de Gal Costa. Os compositores da nova geração não me mandaram nada que eu achasse genial. Não tenho obrigação de gravá-los. Eu gravo quem eu quero - disse Gal Costa, em entrevista à Folha2.
Então tá! Eis que das 14 faixas que compõem Aquele Frevo Axé apenas seis são inéditas. O que para Gal, que há cinco anos não entrava em estúdios para gravar algumas canções fresquinhas, é o suficiente. Só de Caetano Veloso recebeu três novas canções.
Uma boa surpresa: pela primeira vez, ela gravou uma música de Tim Maia. Uma não, duas: Imunização Racional (Que Beleza) e Você. As participações especiais ficam por conta de Milton Nascimento em A voz do Tambor, do cantor e compositor argentino em Amor de Juventud e de Ron Carter, no baixo acústico, em Calling You - da trilha sonora do filme Bagdad Café.
Aquele Frevo Axé, produzido e também concebido por Celson Fonseca, é calcado em levadas eletrônicas. Mas nada que beire o desbunde. O acústico e o eletrônico estão muito bem equilibrados - afirma Gal. A seguir os melhores trechos da entrevista.
Depois do disco acústico, ao seu ver era necessário voltar à cena com um disco contendo instrumentos eletrônicos?
Gal Costa - Bem, o eletrônico no disco é assim: um pouco de bateria, percussões e também violão e instrumentação de cordas mas mesclado com programação eletrônica de uma forma muito sutil. É um disco que foi concebido com uma mesclagem bem equilibrada do eletrônico com o não eletrônico.
Certo, mas não faltaram mais composições inéditas?
Gal Costa - Não, não o disco está muito equilibrado. Há seis músicas absolutamente inéditas. Acho que é o suficiente, está muito bom.
Mas por que não houve espaço para os novos compositores?
Gal Costa - Os compositores da nova geração não me mandaram nada que eu achasse genial. Não gravei... Eu não tenho obrigação de gravar os compositores da nova geração. Eu gravo quem eu quero. Não tenho obrigação e pronto. Lenine me prometeu uma música e deu para outra. Eu nunca vi isso: um compositor fazer uma música e dar para duas cantoras. Não gravei. Azar dele. Azar porque uma música de um compositor cantada na minha voz é um privilégio. O Zeca Baleiro me mandou um repertório em que nada me tocou profundamente. E o Chico César eu não tinha música alguma nas mãos. Eu declarei que iria gravar um disco com compositores da nova geração mas acho que não tenho necessariamente a obrigação de fazer isso. Não sou político para prometer nada.
Tim Maia em dose dupla. Foi um jeito de fazer as pazes com ele?
Gal Costa - (risos) Eu não posso fazer as pazes com quem está morto, não é mesmo? Mas é bom dizer que nunca briguei com o Tim Maia. Ele é quem brigava com todo mundo através dos jornais. Tenho um grande sucesso gravado com ele ( N.R. Um Dia de Domingo), achava ele um extraordinário espetacular. Acontece que nesse disco eu quis homenageá-lo porque nunca havia gravado uma música dele.
Imunização Racional é de uma fase do Tim meio esquisita, que ele fazia parte de uma seita e quase caiu no esquecimento. Essa música te pegou em quê?
Gal Costa - É, é de uma fase obscura dele... E eu gravei justamente porque quase ninguém pensa nessa fase do Tim.
Nesse disco você está trabalhando mais com os registros médios e graves do que o agudo. Por quê?
Gal Costa - Estou cantando num registro confortável. Antigamente eu cantava em tons altos e, em algumas vezes, altos até demais. Mas com o tempo eu ganhei mais graves. Mas os agudos permanecem os mesmos.
Você ainda consegue duelar com a guitarra como fez em Meu Nome é Gal(79)?
Gal Costa - Não tenho feito essa música. Mas se fizesse faria no mesmo tom e do mesmo jeito.
Você se sente um pouco cobrada quanto a manter sempre a extensão vocal? Você sente torcida contra nesse sentido?
Gal Costa - Não, eu não sinto cobrança porque tenho sempre correspondido às expectativas das pessoas quanto à minha performance como cantora. Mas as pessoas realmente cobram algumas pequenas e bobas coisas.
Por exemplo?
Gal Costa - Por exemplo: que depois de um clássico disco acústico eu deveria trilhar pelo mesmo caminho e ao mesmo tempo cobram um coisa nova. Veja o Gil: estreou o show Quanta, na minha opinião o seu show mais bonito, e a crítica reclamou que o Gil não era mais aquele velho Gil. Ou seja, se você dá um passo à frente, reclamam. Se dá um passo atrás, reclamam. É uma coisa boba mas a função da crítica é reclamar mesmo, não é?
Mas normalmente os críticos são muito bons com você...
Gal Costa - Os críticos gostam muito de mim. Mas não deixam de reclamar, acham que devia ser assim ou assado. Mas como cantora eles me respeitam porque estou cada vez mais madura, crescendo.
A participação do Pedro Aznar é belíssima e coisa e tal. Houve a preocupação ao convidá-lo em ter mais penetração na Argentina?
Gal Costa - Sempre cantei em inglês, por exemplo, porque eu gosto. Essa é a primeira vez que gravo em espanhol mas não pensei em entrar no mercado latino ou coisa assim. Apenas tive contato com o trabalho do Pedro Aznar, gostei muito e o convidei para gravar junto. É só isso.
Você teme o esquecimento do público, Gal?
Gal Costa - Olha... Não, não temo porque veja você: tenho 30 anos de carreira e até hoje eu sou o quê?
A melhor cantora do Brasil?
Gal Costa - Ah... Meu trabalho sempre desperta interesse porque todo mundo sabe que sou uma cantora contemporânea. Eu acompanho meu tempo, entende? Está no meu espírito e isso não é nenhuma questão de me esforçar para ser assim. Eu sou assim: eu me cobro, eu gosto de ousar, gosto de estar presente no meu tempo. Então não vejo razão para temer o esquecimento. Mas o dia que eu vier a temer o esquecimento do público, antes mesmo disso acontecer eu mesma pendurarei minhas chuteiras. Pode ficar tranquilo.
Eu fico porque sei que isso não vai acontecer tão cedo!
Gal Costa - E não vai acontecer mesmo, pode ter certeza. Quero estar com 80 anos e cantar maravilhosamente como Alberta Hunter.Bob Wolfenson/ReproduçãoGal Costa: ... o disco está muito equilibrado. Há seis músicas absolutamente inéditas. Acho que é o suficiente, está muito bom
Depois de cinco anos sem gravar um disco com músicas inéditas, Gal Costa volta à cena com Aquele Frevo Axé


