A escola forma o cidadão e a família forma a pessoa. O conceito foi dado pela psicóloga e colunista da Folha de São Paulo, Rosely Sayão, 54 anos, que esteve em Londrina ministrando palestra para educadores em geral. Ela especificou que na escola a criança aprende a conviver em um espaço público com pessoas diferentes, que possuem características e objetivos diferentes, mas que cumprem as mesmas regras para o exercício da cidadania. Em casa, ao contrário, o filho é único e irá aprender a viver com pessoas com as quais tem alguma relação de afetividade.
Para a psicóloga, atualmente está mais difícil a relação entre escola e aluno. ''O mundo mudou, a criança mudou, mas a escola não'', explicou. Ela criticou o atual formato do ensino e disse que em um dos caminhos possíveis o papel do professor seria secundário, apenas funcionando como um orientador do ensino e da pesquisa. ''Em tempo de internet, computador, televisão e crianças mais espertas é inadimissível o professor dar aulas. O aluno deveria organizar o conhecimento e pesquisar em livros e internet que são muito melhores que os professores'', defendeu.
Esse novo rumo no ensino está sendo implementado em uma escola municipal de São Paulo, localizada no Bairro do Butantã, sob a orientação de Rosely. ''Lá os alunos ficam cerca de cinco horas por semana com as disciplinas essenciais e o resto é preenchido com capoeira, música, teatro e outras atividades'', apontou Rosely. O trabalho começou no início do ano mas Rosely disse que já é possível observar algumas mudanças. De acordo com ela, os professores estão menos cansados e as relações se dão de forma mais tranquila. Sobre o modelo atual, ela detalhou: ''Hoje em dia os alunos têm aulas de química, português, matemática, uma depois da outra, e as disciplinas não se relacionam entre si. É mais difícil aprender''.
Questionada se esse novo modelo prepararia os estudantes para o vestibular, Rosely projetou que dentro de dez anos essa estrutura de provas não existirá mais. ''Vestibular é hipocrisia, você nunca mais vai usar o que aprendeu'', argumentou. Ela acrescentou que o ensino precisa de uma reformulação total. ''É uma mudança de cultura'', resumiu.
As relações entre estudantes, escola e pais também foram abordadas por Rosely. Ela enfatizou que cada qual deve saber seu papel. Tarefas e ensino cabem à escola, não devendo os pais interferir nesse segmento. ''Em casa, os pais devem encorajar os filhos a dar conta da tarefa. Lição é um problema da escola'', citou. Nesse período de retorno às aulas, a psicóloga apontou que é normal existir uma certa preguiça entre as crianças. ''É mais gostoso dormir que ir à escola e brincar que fazer tarefa. Mas os pais pensam no futuro da criança e têm que falar que é hora de estudar e pronto'', simplificou.
Como costume, as crianças tendem a impor suas vontades, às vezes com birra, outras pela insistência ou argumentação. Para a psicóloga, a criança que insiste está no caminho certo. ''Tem que deixar ela pedir e saber o que ela quer'', descreveu a psicóloga. Mas ela acrescentou que os pais não devem ceder aos apelos. ''Se é para deixar, deixe logo no primeiro pedido'', completou. A maneira como essas relações se darão vai depender de cada família. ''O eixo da família é o afeto, cada uma tem um índice de tolerância e misturam momentos de permissão e proibição'', detalhou. Ela garantiu ainda que as relações familiares não se diferem por classes socias. ''Toda família é igual. Isso é preconceito'', disse. Rosely Sayão escreve semanalmente para o suplemento Folha Equilíbrio que circula às quintas-feiras na Folha de São Paulo.

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