O moço da televisão
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de maio de 1997
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
Pedro Bial, 39 anos, um dos jornalistas mais conhecidos da TV Globo, só não foi mais assediado em sua passagem, semana passada, pela 1ª Feira Interamericana do Livro, em Curitiba, porque muita gente não ficou sabendo da palestra que ele daria, e do lançamento do livro Crônica de Repórter, no evento. Ainda assim distribuiu dezenas de autógrafos.
Ter o rosto projetado em todo o Brasil nas noites de domingo, como apresentador do Fantástico, faz parte da profissão. Os melhores profissionais com os quais trabalhei sabem que o poder da projeção é do veículo e não deles. O resto é lero-lero, descartou.
Funcionário da emissora há 16 anos, passou boa parte deles correndo o mundo como correspondente. Justificou assim seus poemas: Ao invés de chorar e beber num quarto de hotel, escrevia. É uma maneira que a gente encontra para se entender. Timidez do moço, que não aceita para si a palavra poeta. O título é muito abusado, esquivou-se.
Com três filhos para cuidar, assume o papel de pai disciplinador, rigoroso com os deveres escolares. Hoje a disciplina nas escolas é tão flexível, o ensino é tão moderninho que é preciso educar as crianças em casa. É isso que o mundo vai exigir delas e elas precisam estar preparadas. É, porém, um pai coruja e gaiato.
Quando se formou na universidade, Pedro Bial queria fazer cinema. Como o pai não tinha dinheiro para ajudar na carreira, foi ser assistente de montagem, de câmara, de direção em diversos filmes, manteve coluna em jornal até ser aprovado num teste para a TV Globo.
Por algum tempo atuou no Globo Repórter. Numa das edições em que exercitou seu lado de cineasta, roteirizando e dirigindo um documentário sobre a Mangueira, fez um trabalho extremamente plástico e poético. As primeiras imagens, aéreas, mostravam o morro à noite pontilhado por milhares de luzes e a voz de Elizeth Cardoso cantando Sei lá, Mangueira, de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho.
Depois de registrar cenas do cotidiano, sem que em momento algum aparecesse o repórter, o programa chegou ao final. A tomada aérea foi a mesma do início: os focos de luzes plantados no escuro e a voz de Elizeth entoando os versos de Hermínio: Vista assim do alto, mais parece o céu no chão.
Por aí começou a entrevista da Folha2 com o jornalista que em breve dirige seu primeiro longa-metragem, Primeiras Estórias, um sonho que está se fazendo realidade.
Para quem já fez um Globo Repórter que começa e termina com Elizeth Cardoso cantando vista assim do alto, mais parece o céu no chão, e hoje apresenta uma revista da TV Globo, dá saudade?
Pedro Bial - Não, eu me ocupo bastante, não paro de fazer coisas e trabalhar, justamente para não sentir saudade. Acho que é uma evolução. Isso representa também uma certa profissionalização, no sentido de saber exatamente que estou ali para servir a empresa para um determinado produto, para atender a um determinado público e que eu tenho que fazer aquilo da melhor maneira possível. Tenho que entrar nos sapatos do outro e sair dos meus.
Quantos anos você tem de Globo?
Pedro Bial - Dezesseis anos. Este é meu primeiro e único emprego, acredite se quiser. Antes eu não tinha emprego, tinha trabalho. Trabalhava. Por muito tempo, durante a Universidade, fazia crônicas para jornal e assistências das mais variadas em cinema. Assistência de montagem, de câmara, de direção. E até direção.
O logotipo da Globo incomoda, mistura-se à sua vida? Por exemplo, quando você lança um livro, os leitores vão por sua causa ou por causa da Globo?
Pedro Bial- Acredito que vão muito pela Globo, pela força do veículo. Ao mesmo tempo existe o meu mérito. Muita gente tem a exposição que eu tenho e talvez não provoque a mesma curiosidade no público. Sei da força do veículo, da vitrine que ele significa, mas considero que também tenho meu mérito. Principalmente no exercício da correspondência, as pessoas volta-e-meia me falavam de uma certa diferença nas reportagens que eu mandava. Mesmo que eu não tivesse mérito nenhum, acho que a gente tem que usar a vitrine para causas que nos sejam queridas. Então se a exposição da TV Globo ajuda a vender o livro e se o livro ajuda à reflexão de estudantes e jornalistas, tudo bem. Está bem usada a exposição. E até bem prosaicamente, se a vitrine da TV Globo me ajuda a conseguir recursos para o longa-metragem que sonho em fazer, não tenho o menor pudor de usá-la.
Crônicas de Repórter é seu segundo livro?
Pedro Bial- Na verdade é o terceiro. Tenho um livro de poemas com dois amigos, Os Camaleões. Depois fiz com a René Castello Branco Leste Europeu - Revolução ao Vivo, um livro jornalístico. Este é meu primeiro solo, aquele que eu assino sozinho.
Qual é a satisfação de ter um livro em mãos?
Pedro Bial- É uma delícia ver o livro pronto, pegar na mão o objeto, apesar de se exasperar com os erros de revisão. Mas o livro é insubstituível. Por mais que a gente viva a revolução da informática e tudo isso, tenho sérias dúvidas se o livro como objeto vai ser substituído por uma plaquinha eletrônica que contenha Guerra e Paz.
E a poesia?
Pedro Bial- A poesia está muito acima. Que seria da vida sem a poesia, sem a arte? A vida sem arte não tem graça, é uma tragédia, uma tristeza. A arte é que faz a vida suportável. E a poesia é uma das artes mais sublimes. O prazer de ler poesia não consigo encontrar em nenhum outro prazer. E ler em voz alta. Adoro pegar um poema e ler em voz alta, me dá um prazer físico. Adoro, adoro. E também descobrir um poema novo, saber que ainda existem coisas que a gente nunca leu.
Você recebe muitos poemas?
Pedro Bial- Recebo, mas a maioria não presta. Porque tem isso: a poesia tem um lado bastante democrático e todo mundo acha que pode escrever. Mas a realmente boa, é de difícil acesso. Até por isso estou com tantos pudores quanto a minha produção poética. Não estou querendo mostrar porque não acho que presta. Sou muito crítico.
Porém você lia e declamava nos bares do Rio...
Pedro Bial- Eu era mais jovem, mais inconsequente e tinha um certo sentido naquele momento. Até foi bom porque muita gente que escreve melhor passou a ler também em voz alta, nos bares e saraus. Não descarto a possibilidade de depois de amanhã estar fazendo recital de novo, porque tenho um grande prazer em falar. Só que meus poemas serão minoria no repertório.
A poesia teria espaço na televisão?
Pedro Bial- Num programa literário, como o que eu faço na Globo News, tem espaço, mas na TV em geral acho que poesia mesmo quem faz é a câmera. São as imagens que constroem o efeito poético. No texto jornalístico é muito perigoso, pode ficar ridículo. Já a câmera não; as imagens fazem a poesia não verbal, poesia em movimento.
É o que você fará no seu filme? Estará de algum modo exercitando seu lado de poeta?
Pedro Bial- O filme tem um pouco do lado de poeta, e um pouco do outro lado. Cinema tem muito a ver com artes plásticas, com o visual, a maneira de olhar, um ângulo insuspeitado. Porque ele funciona mais ou menos assim: quando você consegue uma boa solução, tem um resultado mais ou menos. Quando consegue uma ótima solução, tem um resultado bom. E quando consegue uma solução fora do comum, aí sim, tem um ótimo resultado. Para se manter soluções fora do comum, durante uma hora e meia de filme, é muito difícil. Então às vezes você tem uma sequência muito bem resolvida, e em seguida outra não muito. A parte em que eu me sinto mais apto a dirigir um longa-metragem é a do ritmo. Estou trabalhando com gráficos, e vejo o filme inteiro como uma peça musical, uma partitura. Estou vendo o ritmo de cada sequência para que ele tenha uma unidade no final.
Primeiras Estórias traz episódios distintos?
Pedro Bial- Não, porque o roteiro amarrou de tal maneira que este não é um filme clássico de episódios. Em vez de contar cada conto, vou falar das emoções. Ele começa propondo o jogo da imaginação, em seguida cai numa história onde o personagem principal é o medo da morte e o diálogo entre criador e criatura. Em seguida discute a impossibilidade da igualdade entre os homens. É um episódio de um fazendeiro que decide fazer reforma agrária em sua própria fazenda. Depois tem o amor e o medo do amor, e por fim a loucura.
Quem está no elenco?
Pedro Bial- Até agora estão Paulo Autran, Paulo José, Laura Cardoso, Antonio Calloni, Marieta Severo, Sílvia Buarque, Giulia Gam, Cacá Carvalho entre outros.
O projeto do filme é recente?
Pedro Bial- Vem desde o ano passado. Quer dizer: a semente desse projeto é de quase 20 anos atrás. Depois que dirigi meu primeiro curta-metragem - Retrato Recente, filme proibido por mim, porque eu era muito criança e ele é muito ruim - eu queria fazer um segundo curta, com uma adaptação de um conto de Guimarães Rosa. Ele nunca saiu. Agora, anos depois, deu-se o resgate - esse projeto é o final do filme.


