O mito se rende aos festejos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de junho de 2003
Beatriz Coelho Silva<br> Agência Estado 
Rio O cantor Jamelão chega aos 90 anos, completados em 12 de maio, coberto de glória. Mesmo internado em São Paulo, há quase um mês, para tratamento preventivo de diabetes, as solicitações para shows e homenagens não param de chegar à Mangueira, escola cujo samba ele defende na avenida há várias décadas. ''Fica tudo adiado para daqui a um mês, quando ele voltar ao Rio'', explica o presidente da verde-e-rosa, Álvaro Caetano, que o visitou no hospital, semana passada, para levar-lhe o troféu Rival-BR, pela resistência cultural. ''Ele ficou muito satisfeito ao saber que aquele pessoal todo cantou suas músicas e que o aplaudiu mesmo no vídeo, já que ele não pôde comparecer.''
A festa foi na semana passada e a criadora do prêmio e dona do Teatro Rival-BR, a atriz Ângela Leal, conta que a homenagem foi uma unanimidade entre o júri, que escolheu outros dez artistas e produtores da música popular brasileira que vive ao largo das gravadoras multinacionais. ''A sugestão foi do crítico Tárik de Souza, mas os outros não levaram mais que um minuto para concordar, de tão óbvio que era seu nome'', lembra ela. ''E não ninguém representa melhor a resistência da cultura brasileira que o Jamelão. Ele tem uma carreira íntegra, que dura mais de meio século e até a sua insistência em ser chamado de cantor e não puxador de samba é um exemplo. Ele está certo, seu ofício é muito nobre para ter um nome qualquer.''
Jamelão, ou José Bispo Clementino dos Santos, nascido a 12 de maio de 1913, em São Cristóvão, bairro nobre da zona norte do Rio de Janeiro, na primeira metade do século passado, tem mesmo uma história marcada pelo exercício da profissão de músico. Criança, foi jornaleiro, mas adolescente estava na Mangueira, com Cartola e Carlos Cachaça, fundadores da escola de samba. Por essa época, dava canja em gafieiras que se espalhavam pela cidade, mas já nos anos 40 era profissional da noite e tecelão da Fábrica Confiança (a dos ''Três Apitos'', de Noel Rosa) de dia. O sucesso chegaria na década seguinte, no rádio e como crooner da Orquestra Tabajara, de Severino Araújo, com quem viajou por todo o País e pelo exterior.
Dessa época vieram sambas canções como ''Folha Morta'', ''Risque'' (de Ary Barroso), ''Ela Disse-me Assim'', ''Torre de Babel'', ''Esses Moços'' (de Lupicínio Rodrigues), que se tornaram clássicos ao lado de sambas de carnaval, como ''Não Põe a Mão'', ''Quem Samba Fica'' (dele e Tião Motorista), e ''Exaltação à Mangueira''. Diz a lenda que ele cochilava durante os bailes, só acordava na hora de cantar, mas nunca errou o tom ou a música. Tática de profissional tarimbado que, aos 90 anos, mantém o vozeirão que inunda os ambientes onde canta, se sobrepondo a qualquer acompanhamento, orquestra, regional, só um violão ou a bateria da Mangueira. Era assim há 60 anos e continua hoje. ''Não mudei meu modo de cantar'', garante ele. ''O que muda é a tecnologia.''
E o que não muda é a quantidade de fãs, anônimos ou famosos. Milton Nascimento acha difícil falar sobre o que Jamelão representa para a música brasileira. ''Qualquer coisa que se diga fica aquém da importância dele'', confessa. ''Mas escreve aí que adoro sua voz e seu jeito de cantar.'' Elza Soares elogia a generosidade. ''Quando comecei a cantar, pedia para dar canja na gafieira Elite, que funcionava no Méier, nos anos 50, onde ele era estrela. Sempre me tratou muito bem e me deu vez'', lembra ela. ''Tenho o maior carinho pelo Jamelão.'' Zeca Pagodinho aprendeu a gostar desde cedo. ''Minha família toda é fã, ouço desde criança e outro dia, lá em casa, ele cantou a noite inteira. Foi demais.''
Ninguém confirma, mas é por causa de noitadas como essa que Jamelão está internado em São Paulo. Avesso a homenagens (''elas não pagam aluguel'', reclama), nem quis ser enredo da Mangueira este ano, mas não perde uma festa. E compareceu a todas para comemorar seus 90 anos e os 75 da Mangueira (que ocorreu em abril). Cantou nos dois bailes na ocasião, mais uma vez como crooner da Orquestra Tabajara, na quadra da escola e no Scala, e ainda foi a comemorações mais restritas. ''Ele é um rebelde, não segue as recomendações médicas e, por isso, de vez em quando, é preciso interná-lo para fazer direitinho o tratamento. Afinal, ele tem muita saúde, mas já fez 90 anos'', comenta Alvinho, que tem com ele preocupações de filho. ''Nessas ocasiões, o levamos para São Paulo, porque lá as solicitações são menores e ele fica mais quieto. Aqui no Rio ele não pára.''
O que não quer dizer que Jamelão não se sinta em casa na Paulicéia, muito pelo contrário. Ele adora o sambódromo carioca, acha que o lugar dá sorte à Mangueira (a escola ganhou quatro carnavais lá, inclusive o primeiro, em 1984), mas sonha com um desfile de sua escola em São Paulo. ''O problema é que as datas não são boas. O carnaval de São Paulo ocorre na sexta e no sábado e o do Rio, no domingo e segunda'', pondera ele. ''Mas, quem sabe, se não dava para a gente vir aqui no Sábado de Aleluia? Seria muito bacana desfilar aqui, porque os paulistas sabem apreciar o samba.''


