Wilson Bueno
De Curitiba
Especial para a Folha2
Em 16 de junho passado, Dublin, a capital da Irlanda, se enfeitou pela enésima vez, no transcurso de mais um ‘‘Bloomsday’’, o evento que comemora, a cada ano, com festas e sarabandas, o Dia de Bloom, o impagável herói de um dos mais importantes romances criados neste século, o ‘‘Ulysses’’ (1922), - um marco na história da literatura universal em todos os tempos.
O autor do livro, o irlandês James Joyce, cantado hoje em prosa e verso, e considerado, pela mais exigente crítica, um divisor de águas na história da literatura, em seus quase 59 anos de vida comeu o pão que o diabo amassou - seja pela intransigente radicalidade com que tratou o fazer literário, seja por seu difícil temperamento - autocentrado e voluntarioso, um pisciano difícil de roer, nascido a 22 de fevereiro de 1882 com a ingente missão de detonar os modos e feitios da velha ars literaria tal como vigorava até então em nosso insensato mundo. E, rara proeza, conseguiu, de maneira olímpica, o seu intento - nunca mais, depois dele, as letras foram as mesmas, e passados mais de meio século de sua morte, o produto de seu talento prodigioso continua suscitando calorosas discussões e servindo de lume e esteio para vanguardas e neo-vanguardas mundo a fora.
À já vasta bibliografia, em muitas línguas, sobre a vida e obra deste que foi um dos últimos titãs literários do século, vem somar-se agora este ‘‘James Joyce’’, da celebrada ensaísta Edna O’Brien, que a editora Objetiva acaba de colocar nas livrarias brasileiras dentro da coleção ‘‘Breves Biografias’’ que já nos deu, entre outras, as vidas de Dante, Tchekhov e Marcel Proust.
Nem de longe, claro, o livro, de menos de 200 páginas, se compara ao verdadeiro monumento que é, por exemplo, a célebre biografia do autor de ‘‘Ulysses’’, assinada por Richard Ellmann, e nem esta nos parece sua intenção. Leve, ligeira, composta numa prosa correta e sem se circunscrever a detalhes, a biografia de miss O’Brien nem por isso deixa de nos dar, embora alguns senões, o retrato corpo inteiro de James Augusta Aloysius Joyce, baixo a radiografia implacável do único propósito que lhe moveu a vida - o de passar à História como alguém que escreveu livros para serem lidos dali a mil anos; contos, romances, ‘‘desintegrações’’ textuais destinados, como foi desde sempre o seu projeto, aos leitores do Juízo Final.
A crer em miss O’Brien e em suas pesquisas, para atingir este propósito, Joyce não fez por menos - com cinco anos, óculos de grossas lentes, cantava nas festas dominicais da família, para orgulho do rabelaisiano John Joyce, seu pai, um sanguíneo irlandês, iracundo e beberrão, e já fazia, voluntarioso e meio despótico, a mãe, a devotada Sra. May, de gato e sapato. Coisa que continuou fazendo por toda a vida, aliás, como se a mãe não tivesse outra missão na vida que a de satisfazer seus caprichos.
Usou e abusou desta mãe quebrada por dezessete partos, feito ela fosse não um ser humano, mas uma máquina de prestar serviços ao filho genioso e indiferente até a crueza. Mesmo na agonia e morte dela, chamado às pressas de Paris onde tentava o curso de Medicina, que acabou abandonando nos primeiros anos, o jovem Joyce preferiu lançar-se, sedento, às cartas de amor que o marido escrevera a ela, em mocinha, a guardar-lhe a cabeceira de agonizante. O escritor nele era o que contava.
Mas, claro, a relação com a mãe era um pântano de culpa e desassossego, e assim foi até o fim, para tormento de ambos. O mais curioso contudo nesta edipiana relação, e O’Brien faz questão de frisar, é o fato, já bem conhecido, de que não foi Nora Barnacle, mulher de Joyce, a inspiradora de Molly Bloom, feérica protagonista de ‘‘Ulysses’’ e responsável pelo célebre monólogo interior que é, do livro, uma de suas culminâncias, e um dos grandes momentos da literatura em todos os tempos. Muito da libido de Molly, sem dúvida, tem sua fonte em Nora, mas o fluxo daquela prosa sem vírgulas, acossada e prenhe de urgências, procede da mãe; e por mais prosaico que isto possa parecer - das improvisadas cartas que, sem domínio suficiente do inglês, ela lhe mandava de Dublin para Paris, invariavelmente escritas sem ponto ou vírgula. O que comprova que nem sempre é muito honrosa a gênese dos grandes feitos literários...
Edna O’Brien, parece, não perdoa, ao centrar o foco de sua biografia em um Joyce que é quase um monstro de mesquinhez e voluntarismo, usando a tudo e a todos em proveito próprio, não descuidando, um segundo sequer, do maior de seus objetivos - o de que tudo e todos viessem servir a James Joyce, a ponto de - ao romper com uma de suas protetoras, a livreira Sylvia Beach - dizer-lhe, na cara - ‘‘Só sou amigo de alguém se houver um propósito.’’ O que hoje traduziríamos, servindo-nos do dito popular, como aquele que não amarra ponto sem nó...
A biografia de O’Brien é pródiga na revelação destes dados, não os colocando, em nenhum momento, como detalhes periféricos de uma vida, mas na qualidade de elementos fundadores de uma personalidade e de uma ‘‘intenção’’, digamos assim, frente à existência. E, nestes momentos, o livro falseia, ao construir o retrato de um monstro frio e calculista como o responsável por aquele outro retrato - o do gênio que dividiu a literatura em antes e depois dele. E isto fica parecendo muito mais o esforço para nos dar uma personagem exoticamente arrogante e, por consequência, exoticamente genial, que o de nos contar a vida de alguém, fim primeiro de toda biografia que se preze, mesmo as mais breves.
Ao centrar, contudo, a narração desta vida, mesmo que de modo suspeito, em seu ângulo neurastênico e obsessivo, egoísta até o osso e autocentrado ao ponto do ridículo, O’Brien radiografa, de outro lado, não sem talento, o que interessa - a Obra pela qual tudo deve ser subjugado e em razão da qual o mundo deve mover-se. Aí a biógrafa inglesa tira ouro do nariz - se temos a rica Harriet Weaver Shaw (pasmem, contabilidade recente, chegou a gastar cerca de 1 milhão de libras esterlinas nas décadas todas em que ‘‘protegeu’’ Joyce, ainda que por ele frequentemente humilhada), temos, em contrapartida, as várias páginas dedicadas exclusivamente ao processo de criação de ‘‘Ulysses’’ e também de ‘‘Finnegans Wake’’ (leia texto nesta página), sem descuidar de ‘‘Retrato do Artista Quando Jovem’’, e ainda menos de ‘‘Dubliners’’. Este último, primeiro livro de Joyce, foi recusado, creiam, por nada menos do que 40 editoras, com argumentos os mais diversos - desde os que viam nele ‘‘tibieza moral’’ (sic) até os que temiam ser processados pelos donos dos botecos citados ao longo da obra - hoje, seguramente, uma das mais importantes reuniões de contos publicadas neste século.
A destacar ainda, deste ‘‘James Joyce’’, uma paixão, e parece que é esta paixão que tudo permeia, mesmo quando aparentemente menos se fala dela - a paixão de James Joyce pela Dublin natal, paraíso e quintal, inferno e lar. Ainda que dela tenha vivido em permanente exílio, (Trieste, Roma, Zurique, Paris) era dela, de suas ruas e pontes, do Rio Tiffey memorioso, de suas esquinas e escondidos, de seus botecos fedidos e bordéis de quinta categoria que lhe vinha a alma profunda das coisas. E, por extensão, tudo o que pensou, intuiu, imaginou ou dispôs em prosa e verso.
De ‘‘Os Dublinenses’’ (1914) à explosão nuclear de ‘‘Finnegans Wake’’ (1939), mais que às patronesses (Silvya Beach e miss Weaver), à aturdida mãe ou ao estapafúrdio pai, mais que a Beckett ou a Italo Svevo (sua grande amizade triestina), mais que à iletrada Nora Barnacle, sua esposa, ou mesmo a Homero, santo de sua devoção literária, se a alguém ou a alguma coisa a Humanidade deve as obras-primas joycianas, este ‘‘alguém’’ são os dublinenses e esta ‘‘alguma coisa’’, a cidade de Dublin. A capital da velha ‘‘Ireland’’, da qual Joyce, mesmo no leito de morte, não esqueceu, revivendo-lhe o mapa e o traçado das ruas, um dia antes de morrer, a 13 de janeiro de 1941, - destruído, moralmente arrasado, e considerando que se metera talvez numa errada.
‘‘Finneganns Wake’’, agora, era a bola da vez, motivo de chacota e riso, o asco da crítica e o descaso dos amigos. Ele estava só, virtualmente cego, ilhado; a filha Luci enlouquecia de sanatório em sanatório; e até Beckett, parece, não o compreendia nem à sua ‘‘transvessia’’ noturna. E o que era pior - em razão das suas desta vez mais que ‘‘delirantes’’ radicalidades textuais, perdera até mesmo a proteção, por todos os motivos essencial, de miss Weaver, que torcia o nariz para a pluri-saga epopéica de Anna Livia Pluribelle & de sua gangue, neste ilegível livro da noite, cuja prosa extrema ainda hoje choca, desestrutura e enlouquece o coro dos contentes.Biografia escrita por Edna O’Brien é mais uma tentativa de retratar o genial, inconfundível e, para alguns, insuportável James Joyce
ReproduçãoJames Joyce: o escritor cuja obra é considerada um divisor de águas da literatura ocidental deste séculoReproduçãoCena de Dublin na época em que Joyce viveu na cidade

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