O mito por inteiro
Frágil e viril, doce e bruto, difuso e incisivo, masculino e feminino, assim foi James Dean. Uma espécie de Peter Pan triste e ébrio que no crepúsculo de uma sexta-feira, 30 de setembro de 1955, com apenas 24 anos, estourou seu Porsche Spyder na estrada 466, na Califórnia, com um Ford que vinha na direção contrária. The End. Sai de cena o homem, entra o mito, a lenda. Ele passou como um meteoro por Hollywood, mas deixou a marca indelével de seu carisma. O carisma de um jovem e sofrido ídolo.
Sua carreira durou apenas 16 meses, mas sua imagem se mantém viva e intensa 43 anos após sua morte. A prova disso é a Coleção James Dean que a Warner Home Vídeo lançou no sistema sell-thru, numa bela caixa contendo cinco fitas: os três filmes estrelados pelo ator (Vidas Amargas, Juventude Transviada e Assim Caminha a Humanidade, este em duas fitas) e o documentário Eternamente James Dean. São filmes que merecem fazer parte do acervo doméstico porque, além de grandes obras, formam o retrato de uma geração que nunca mais voltará.
Por R$ 75,00 (preço da coleção), é possível levar para casa as rebeldias completas de James Dean. Vistos sob o olhar deste fim de milênio, os filmes parecem ainda melhores do que em seu tempo, quando foram elogiados e criticados por igual. São dramas fortes, intensos e poderosos que, hoje, têm um ingrediente a mais: o sabor da época. Os carrões, as jaquetas, os topetes, as gírias e os canivetes estão lá, congelados para sempre em celulóide. O grande senão de toda essa história é que o mito James Dean se tornou tão forte que acabou ofuscando as qualidades de seus filmes que, por sinal, são muitas. Sua imagem na tela é tão cativante que o resto acaba ficando em segundo plano.
Vidas Amargas, filmado em 1954 e baseado no denso romance de John Steinbeck, é o mais cruel e amargo da triologia. Dirigido por Elia Kazan, o filme reflete o mal-estar e o beco sem saída dos anos 50. Nas mãos de Kazan, James Dean deu voz à revolta dos filhos de uma América puritana e dominadora que temia perder seu poder mundial. Ele interpreta Cal Trask, um Caim amargurado, triste e rejeitado, que viaja solitário sobre o teto de um trem. Sua mãe (Jo Van Fleet) é a dona de um bordel de Salinas e todo o amor paterno vai para o bom irmão Aron, como na Bíblia.
O filme é belíssimo e a fotografia, primorosa. O primeiro encontro de Cal com a mãe no bordel é uma das cenas mais belas e fortes do cinema. Ele gritando num corredor escuro fale comigo mãe, fale comigo é de tirar o fôlego. Você simplesmente quer entrar pela tela e amparar aquele bichinho assustado e incompreendido que James Dean conseguiu eternizar como ninguém. Na época, dois atores desconhecidos fizeram o teste para interpretar Cal: James Dean e Paul Newman. Não é preciso dizer quem foi o vencedor.
Juventude Transviada, o segundo filme da triologia, transborda luz. As tábuas da lei anticonformista dos anos 50 podem parecer corroídas para as gerações pasteurizadas de hoje, mas devem ser lidas dentro do contexto de seu tempo. O diretor Nicholas Ray apostou no amor. Rebelde, mas com causa. Na pele de um jovem desajustado, James Dean deu paternidade às diversas modalidades daquilo que o establishment chamou de rebeldes sem causa. Com seus blusões de couro, duelos de navalha e rachas de carros à beira do precipício, a juventude expressava seu inconformismo diante da antivida estabelecida.
O ator morreu duas semana após terminar as filmagens de Assim Caminha a Humanidade, no qual atuou ao lado de Rock Hudson e Elizabeth Taylor. O diretor George Stevens esbanja grandiosidade, pretensão, peso e esquematismo. James Dean mais uma vez está soberbo. Dois anos após sua morte, ele concorreria ao Oscar de Melhor Ator, perdendo para Yul Brynner. O ator chega ao final do filme interpretando um homem de 50 anos. Maquiado, ele apresentou uma idade que jamais chegaria a ter na vida real.
O documentário Eternamente James Dean, de 1988, é um rico material. Mostra até o ídolo fazendo um comercial da Pepsi-Cola, rodado no começo da carreira. Em vez de transformá-lo numa vítima do sistema, o documentário retrata-o como um jovem responsável, engraçado, amigo e cauteloso. Tão cuidadoso que sua morte no acidente foi culpa do carro que vinha na direção contrária. A fita menciona os casos amorosos com Pier Angeli e Ursula Andress, mas nega seu bissexualismo. Homo, hetero ou bissexual, não interessa. O que importa é a magnitude de seu talento e sua personalidade autêntica e contestadora.
Morra jovem, permaneça lindo. Tema crucial da cultura popular desde Tristão e Isolda. James Dean, sedutor e cativante como uma flor do mal baudelaireana, foi embora cedo. Mas os deuses o presentearam congelando-o em celulóide, belo para sempre.ReproduçãoEm Juventude Transviada, James Dean deu voz aos filhos rebeldes da América puritanaCelso Mattos





