O mito faz anos
Se não foi assim foi mais ou menos assim: um deputado baiano, de nome Aníbal Duarte, encarregou seu conterrâneo, o compositor Josué de Barros, de organizar uma festa no Instituto Nacional de Música. Mas o nobre parlamentar aconselhou a convocar, como um das atrações, uma jovem de 19 anos. Dizia ele que a dita cuja cantava que era coisa!! Que era preciso dar-lhe uma chance!!! Que isso e que aquilo!!!! Enfim, que uma certa Maria do Carmo, conhecida por Carmen, já cintilava mesmo no anonimato.
Daí que a moça foi convocada. E com trejeitos e tudo o mais, a jovem espevitada fez sua estréia oficial num palco cantando Chora Violão, uma música conhecida da época. A data: 7 de fevereiro de 1929. Portanto, hoje faz exatamente 70 anos que a música popular brasileira tornava público o seu maior mito: Carmen Miranda.
Mas a grande data redonda a ser comemorada mesmo acontece na terça-feira quando os calendários vão assinalar os 90 anos de nascimento dela. Dela! Aquela chamada por aqui de A Pequena Notável, nos Estados Unidos de Brazilian Bombshell e para Deus e o mundo simplesmente de Carmen Miranda. Oh yes, a divinidade mitológica que se apresentou ao planeta com seus gritantes trajes de baiana estilizada e seus turbantes hortifrutis originais e ma-ra-vi-lho-sos!!
Foi a única brasileira, mesmo sendo portuguesa de nascimento, a ter inconstetável fama mundial. Ela foi e será sempre lembrada como a única brasileira que foi para fora, criou fatos e fez uma carreira maravilhosa. Houve outras moças que também aconteceram, mas Carmen sempre será a primeira e única a fazer sucesso no exterior- afirma Aurora Miranda, irmã de Carmen, por telefone. Carmen era fantástica porque não era prosa, não era convencida. Ela era natural e em nenhum momento se envaideceu com a fama- complementa.
Aurora, atualmente com 84 anos, que também fez um relativo auê como cantora, é a principal guardiã das memórias da irmã. Tem na ponta da língua histórias e fatos envolvendo Carmen. É a detentora de detalhes preciosos que circundam o maior mito latino. É, por outro lado, cautelosa quando se toca em alguns fatos pessoais da irmã. Como o casamento mal sucedido com o norte-americano David Alfred Sebastian, morto em 1990.
Em bem ou mal traçadas linhas a respeito de Carmen Miranda, ele sempre é apontado como o grande vilão. Aquele que além de não saber amar a mulher também a explorou. Ele ganhou muito com o trabalho de Carmen...Na minha opinião houve exploração sim porque...Ele tinha muito interesse em que ela trabalhasse bastante...No fim, ficou com quase tudo o que ela conseguiu. Só a mansão em Beverly Hills, que ficou com ele, valia uma fortuna- diz Aurora.
Logo em seguida, elaa muda educamente de assunto para mais uma vez enaltecer a irmã. Ela desde pequena tinha vontade de ser artista, Tinha um poder de criatividade fantástico. Era uma artista, não?- diz. Mas os detalhes tim-tim por tim-tim, aliados obviamente a fatos cronológicos e um vastíssimo material fotográfico sobre a vida e obra de Carmen Miranda virão à tona até agosto deste ano.
Trata-se de Taí!...Carmen Miranda, uma biografia com mais de 800 páginas escrita por Iberê Magnani, fã dos mais ardorosos, pesquisador dos mais renitentes e atual diretor do Museu Carmen Miranda, no Rio de Janeiro. O levantamento de dados bem como entrevistas (cerca de 40 pessoas entre familiares, amigos e admiradores) aconteceram entre 93 e 94.
O livro, a ser lançado pela editora DBA, como explica, não será calcado apenas a datas e mais datas e fotos e mais fotos. Não, não! Lá estarão todas as 315 letras de músicas gravadas por Carmen, a filmografia (no total 19, dos quais 5 feitos no Brasil e o restante nos EUA), um pequeno histórico dos compositores gravados por ela e...Há também o lado sentimental. Quero corrigir as falhas das biografias e trabalhos anteriores, Daí o motivo de o livro ser um calhamaço- afirma Magnani. No livro, eu coloco Carmen Miranda nua e crua. Ela era uma pessoa boníssima e isso eu vou mostrar. Mas também vou tocar em algumas situações melidronsas que a família pode vir a não gostar- complementa.
Uma das feridas mais doloridas em que ele vai colocar o dedo é o casamento de Carmen Miranda e David Sebastian, ocorrido em 1947. Os dois se conheceram no mesmo ano durante as filmagens de Copacabana. Ela, uma estrela imensa. Ele, um ano mais novo, ex-montador de filmes da Columbia Pictures e que na ocasião arranjara (na verdade arranjaram-lhe) um cargo de assistente de produção do filme.
Era manco e beberrão. Um tipo físico sem maiores atributos e qualidades, portanto. Que cativou o mito, entre outras coisas, ao levá-la para jantar num restaurante sem maiores brilhos.Ele foi o homem errado que aconteceu na hora certa. Carmen queria ter um filho, estava com 38 anos. Ela teria peito para enfrentar a barra de ser mãe solteira lá, mas no Brasil seria crucificada. Ela poderia ter ido para a cama com homens melhores mas... - analisa o biógrafo.
Magnani, mesmo que veladamente, também acredita que David Sebastian fez gato e sapato de Carmen Miranda. Mas no livro, em que traz o casamento na visão de amigos, familiares, de Carmen e até mesmo do dito cujo (numa entrevista concedida a uma jornalista norte-americana, em 86), o leitor é quem vai dar a palavra final sobre quem errou ou deixou de errar.
Na seção diz-que-diz, o escritor vai afirmar com todas as letras: a cantora não usava calcinhas. Pelo menos em cena. Um documento comprobatório disso, público e notório, é a famosa foto em que César Romero, seu parceiro de filmagem de Aconteceu em Havana (41), a levanta com um pouco mais de vontade e tudo vem à mostra. Ela não dançava com calcinhas porque precisava ter flexibilidade. É que as calcinhas feitas na época pareciam cuecas samba-canção e por causa disso as roupas poderiam ficar empapadas- diz Magnani.
É aguardar para ler o que pode ser considerada desde já a biografia mais completa dessa pequena (tinha 1,53 m de altura) e ao mesmo tempo imensa mulher que encantou o mundo com sua voz e seus olhos e braços e mãos e caras e bocas e, principalmente, balangandãs.ReproduçãoCarmen Miranda, a Pequena Notável, tinha 1,53 m e brilhava do alto de seus balangandãsAntônio Mariano Júnior





