O mito dos sopros que sumiu no ar
São Paulo Lábios finos, óculos de vendedor de enciclopédias, cabelo gomalinado, Glenn Miller foi a antítese do galã americano. A despeito disso, tornou-se aos 40 anos o maior popstar de sua época, amado pelas multidões que botava para dançar com a música orquestral apropriada para grandes serenatas ao luar.
Um dia do ano de 1942, para glória e orgulho de sua legião ''família'' de admiradores, Miller desmanchou sua big band e foi para a guerra, para liderar a Glenn Miller Army Air Force Band. Em 15 de dezembro de 1944, ele voaria para um show patriótico em Paris em um pequeno monomotor Noorduyn Norseman, um D64, saindo da base Twinwood Farm, em Bedfordshire, na Inglaterra. Nunca chegou ao destino, não acharam o avião, nunca mais se viram os óculos de Glenn Miller.
O avião que sumiu naquele fog causou especulações que nunca cessaram, ao longo dos anos. Hoje, o canal por assinatura ''GNT'' mostra, às 19 horas, o documentário ''O Último Vôo de Glenn Miller'', um ambicioso projeto de reconstituição dos acontecimentos que levaram ao desaparecimento do band leader mais amado da América.
Dirigido e produzido por Dryn Higgins, o filme parte do depoimento de dois ex-combatentes da RAF (Real Força Aérea britânica) para engrossar uma das teses mais discutidas desde aqueles tempos: a de que o avião de Miller foi abatido por ''fogo amigo'', uma expedição aérea que voltava do front para Londres e viu o pequeno avião em área proibida.
Embalado pela música da big band do trombonista, com cenas de época e impressionantes imagens de guerra, o documentário se edifica em clima convincente, mas que turva o essencial: o que interessa saber se Miller morreu de fato nos braços de uma prostituta em Paris ou se foi metralhado pela RAF?
Era um músico, e sua obra precocemente abortada é que é a tragédia a ser analisada. O filme termina com uma melancólica busca no ponto do mar onde se acredita que o avião de Miller caíra. O mergulhador pago pela produção do especial chega com seu barquinho, Discovery, ao ponto, mergulha e acha algo que ''parece muito'' parte da fuselagem. Não era. O barco volta ao porto, com seus tripulantes cabisbaixos. Retornam depois com outro mergulhador. ''Deep seeker'', diz o aviso na cabine do navio. Mergulho nas profundezas, e outra decepção. Miller não estava lá.
Ainda assim, é nessa busca de uma ''verdade'' sobre os fatos que se assenta todo o material. O principal depoimento é de um ex-navegador dos bombardeiros Lancaster, Fred Shaw, que testemunhou o abate do avião de Glenn Miller. O depoimento de Shaw foi colhido por um cinegrafista amador pouco antes de ele morrer, na África do Sul.
''Eu nunca vira um bombardeiro antes'', disse Fred Shaw. ''Estava sentado na minha posição de navegador e observando os céus. Vi um pequeno monoplano, um Noorduyn Norseman, um pouco abaixo, e gritei para o atirador: ''Tem um avião ali.'' Ele respondeu: ''Sim, eu o vi.''
Somente em 1956 Shaw fez a conexão com o desaparecimento de Miller, mas sua história foi encarada como a de um sujeito em busca de publicidade. Havia também discrepância de informações sobre os horários dos dois vôos, o dos bombardeiros retornando de uma missão abortada na Alemanha e o de Miller em direção a Paris.
Já Roy Nesbit, um historiador da aviação e editor disse que a costa sudoeste da Inglaterra tinha sido liberada para vôos. A tese só se justificaria se o avião de Miller tivesse se desviado de sua rota, por causa do mau tempo tese plenamente aceita.
Naquele dia, havia 150 bombardeiros Lancaster voltando da missão na Alemanha. Um anúncio foi posto no jornal para encontrar os outros integrantes do Lancaster de Fred Shaw e encontraram o piloto daquele avião, Victor Gregory, hoje vivendo em Westonsuper-Mare, na Inglaterra. Ele confirmou a história de Shaw, mas disse que o atirador, Ivor Pritchard, é quem tinha a melhor visão do avião que cruzaram e abateram. Pritchard morreu em 1983.
Todas essas especulações foram longamente exploradas na imprensa ao longo desses últimos 20 anos, mas pouco se acrescentou à história. Um dos reis da ''Era do Swing'', ao lado de Tommy Dorsey (1905-1956), Benny Goodman (1909-1986), Artie Shaw e Bunny Berigan (1908-1942), Miller deixou grandes discos como bandleader e também acompanhando outros músicos. Com Berigan, por exemplo, gravou ''Swingin' High'' (Topaz, 1939). Sua música merece mais atenção que sua tragédia.
Serviço
O documentário ''O Último Vôo de Glenn Miller'' será apresentado hoje, às 19 horas, no canal por assinatura GNT





