Meu pai era muito engraçado. Contava estórias incríveis, que enchiam de fantasia a cabecinha dos integrantes de sua atenta platéia familiar. Dia desses estava eu assuntando o açoite da chuva forte em minha janela, quando me surpreendi sorrindo de meus próprios pensamentos ao lembrar-me de um caso que ele costumava narrar para a gente, naquelas noites mornas de verão baiano.
Dizia ele que um fazendeiro muito rico, que possuía também lojas de tecidos na cidade, em minha longínqua Vitória da Conquista (BA), não fazia nenhum negócio, não viajava para lugar nenhum, sem antes consultar Dona Quitéria, uma sortista de sua confiança.
Naquele dia, seu mané Teodoro, o fazendeiro, não iria celebrar contratos, nem fazer qualquer viagem. Era uma visita de rotina à vidente, de quem recebeu valiosos conselhos, muito bem recompensados, aliás, pelo cliente. O mais importante deles foi o seguinte: Seu Mané Teodoro devia cuidar-se, senão iria morrer de uma queda de burro. Deus me livre e guarde! exclamou, benzendo-se. O melhor então era prevenir. Vender toda a tropa de asininos ou, quem sabe, por via das dúvidas, vender também seus cavalos de raça, que ele gostava tanto de cavalgar. Era bom cavaleiro, mas não era doido de arriscar-se. Pensando melhor, mais prudente mesmo seria vender a fazenda e nunca mais passar perto de um burro e, por precaução, de cavalo, égua ou jumento! Assim pensou e assim fez.
Numa tarde de janeiro, seu Mané Teodoro foi surpreendido na rua por uma chuva forte, um aguaceiro danado, com um vendaval medonho, que derrubava muros e destelhava casas. Desprevenido, sem guarda-chuva, sem capa e sem chapéu, seu Teodoro ia correndo em direção a sua casa. Apavorado, procurava desviar o perigo, passando longe de charretes e de qualquer animal.
Mas, a fatalidade espreitava a indefesa vítima. O tempo escureceu. O dia virou noite. O vento uivava na copa das árvores, que executavam uma dança macabra, e a chuva chicoteava o pobre homem, que tentava proteger-se, em vão, com as mãos e com um jornal dobrado. Foi no instante em que estava passando pela calçada, patinando, como num pesadelo, nas pedras molhadas e lisas. Ia procurar abrigo embaixo de uma marquise, quando justamente dali de cima, empurrada pela ventania - pumba! - caiu uma pesada estátua equestre, que atingiu seu Mané Teodoro na cabeça, causando-lhe morte instantânea por traumatismo craniano, conforme atestaria o médico legista.
Sortista filha de uma égua! ‘‘Queda de burro’’?! Por que não avisou logo que era burro de barro?! E que ele não cairia do burro, mas o burro é que cairia nele?
Às vezes sou tentando a crer que não adianta a gente preocupar-se tanto com o futuro, pois, se for mesmo como dizem, este já está traçado, irremediávelmente, para cada um de nós. Nessa linha de raciocínio, de nada serviria você se cuidar no trânsito porque, se não for chegada sua hora, nenhum carro vai atropelá-lo. Mas também se for seu dia, nada poderá salvá-lo. Se você se esforçar, ou não, para evoluir na vida, não vai mudar o destino. Ele está escrito nas estrelas...
Eu, porém, recuso-me a pensar dessa forma porque sou otimista. Se fosse mesmo assim como dizem, não passaríamos de fantoches ao sabor de um determinismo cruel. E eu já cheguei à conclusão, por experiência própria, de que é muito mais benéfico cultivar o pensamento positivo porque, ao contrário do pessimista, se você tiver de sofrer, vai sofrer uma vez só, quando (e se ...) as coisas derem errado. O pessimista, não. Ele sofre antes - achando que tudo vai acabar mal. E sofre depois - quando sua previsão maligna se confirma.
Amigo, você tem dentro de si um poder infinito capaz de corrigir rumos, desmistificando e desmentindo profecias, previsões e adivinhações. Basta ter fé nesse poder!
Que triste sina dessas pessoas angustiadas que precisam de alguém que se ‘‘responsabilize’’ por suas mazelas!
Que tormento tão grande, meu Deus, afligirá essas almas que necessitam, para dirigir sua vida, de alguém mais miserável (e mais atormentado) que elas, e que exerce suas funções numa tenda pobrezinha, lá em caixa-pregos?
Não dê aos outros o poder de influenciarem sua vida, conduzindo seu destino! Seja o timoneiro de seu próprio barco!
Definitivamente, nosso futuro não pode estar sujeito às flutuações da sorte ou do azar. Pode ser mais cômodo jogar no acaso a culpa de nosso fracasso, de nossa incompetência. Mas a verdade é que cada um traça seu roteiro, faz sua história. Neste ponto, prefiro ficar com Sheakeaspeare, que genialmente percebeu que o bem e o mal não existem: a mente humana é que os cria.
q Albino de Brito Freire é juiz de Direito

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