O mito da raça
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Célia Polesel<br> Reportagem Local 
Há quatro anos quando foi matricular a filha em um colégio paulistano, o sociólogo Demétrio Magnoli levou um susto ao saber que por orientação do Ministério da Educação, o formulário de inscrição trazia um campo pedindo a raça do aluno. Magnoli colocou ''humana'' na ficha e voltou para casa decidido a escrever ''Uma Gota de Sangue - História do Pensamento Racial''. O título do livro é por causa de leis americanas que determinam que basta um ancestral não branco para a pessoa ser negra, não importando a cor da pele.
O autor conta que já tinha algum material sobre o assunto e se aprofundou nas pesquisas para o livro, que mergulha nas origens do racismo e seus desdobramentos nos tempos atuais. ''Raças não existem. O que existe é o mito da raça, uma invenção recente, nascida há 150 anos junto com a expansão das potências europeias na África e na Ásia e usada para conquistar poder político e econômico.''
Magnoli explica que o Brasil tem uma evolução diferente dos Estados Unidos (EUA), país de origem da maioria dos exemplos de leis de segregação racial. ''Enquanto nos EUA a população se via dividida em raças, no Brasil nessa mesma época há uma reação ao racismo; enquanto os racistas defendem que a miscigenação produz a degeneração, o Movimento Sanitarista afirma que as doenças estavam surgindo por causa do mosquito e não da mistura racial'', combatendo assim o mito da raça.
Para ele, o Brasil aprendeu a se ver como um país miscigenado. ''No Brasil, os racialistas propõem que as estatísticas demográficas tomem pardos e pretos como negros. Eles precisam transformar o quadro intermediário, cheio de tons indefinidos, em algo mais simples, com duas cores, para sustentar o mito da raça. Só que 42% dos brasileiros se dizem pardos, ou seja, não se classificam em raças.''
Magnoli explica que há racismo no Brasil, mas que não existe um conceito popular de que estamos separados por raças, até porque ao longo da história o estado brasileiro não fez leis raciais. Mas isto está mudando com o sistema de cotas e também com o Estatuto de Igualdade Racial.
''As cotas raciais não são um meio válido para corrigir diferenças socioeconômicas porque nunca reduziram a pobreza nos lugares onde foram implantadas. O que a cota faz é instalar uma competição dentro da classe média, uma competição racial dentro de um grupo social que veio do ensino público. Quem acaba beneficiado é o jovem de classe média da cor 'certa' em detrimento do jovem de classe média da cor 'errada'. É a discriminação reversa.''
Segundo o autor, as leis raciais instalam o racismo no meio das massas. ''Ações afirmativas socioeconômicas, como cotas sociais e políticas de melhoria rápida e dramática das escolas públicas nas periferias, ajudariam mais os pobres a ingressar no ensino superior. Fazer isso por meio de ações afirmativas raciais é um grande risco: cotas raciais traçam uma fronteira dentro dos ônibus, dentro dos bairros periféricos, no meio do povo, porque vizinhos de bairro e colegas de trabalho com a mesma renda vão se olhar e entender que estão separados pela cor da pele. Isso é instalar no meio do povo o ódio racial.''
SERVIÇO
- Uma gota de sangue - história do pensamento racial
Autor - Demétrio Magnoli
Editora - Contexto
Quanto - R$ 49,90 (400 pág.)


