O mito cai por terra
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de janeiro de 1997
Luiz Carlos Merten Agência Estado 
Quando Louis Malle morreu, no final de 1995, deixou inacabado o projeto de filmar a biografia de Marlene Dietrich. Se fosse fiel ao livro da filha de Marlene, o filme seria barra-pesada. Maria Riva traça um retrato devastador da mãe. Considerado um ato definitivo de desmitificação, o livro Marlene Dietrich retrata a estrela como uma mulher fria e violenta, que transformou a vida da filha num inferno. Ela se fingia de protetora e carinhosa, mas odiava as crianças, é o que Maria Riva diz de mais caridoso da mãe. A partir daí, é pau puro.
O livro foi publicado em 1993, um ano após a morte de Marlene. Ela morreu nonagenária em Paris. Foi, no cinema, a encarnação definitiva da vamp, a devoradora de homens. O escritor Ernest Hemingway, apaixonado por Marlene, escreveu que ela podia derreter um homem com um levantar de sobrancelhas e destruir uma rival com o olhar. A própria Marlene poliu seu mito numa autobiografia e no livro de pensamentos O ABC de Marlene Dietrich, em que, entre outras coisas curiosas, define vício como o que as outras pessoas têm.
Marlene nasceu Marie Magdelene von Losch em Berlim, em 1902. O mito surgiu quando ela interpretou a cantora de cabaré que destrói o respeitável professor de O Anjo Azul. O filme de Josef von Sternberg é considerado com justiça um dos grandes clássicos do cinema. Marlene foi chamada a Hollywood, Sternberg foi junto. Ele continuou esculpindo uma personagem sob medida para a atriz, traduzindo na tela aquilo que ela dizia na canção de O Anjo Azul: Da cabeça aos pés, eu sou feita para o amor.
Para Sternberg, ela foi uma mulher chamada desejo. Para Hollywood, um símbolo de glamour. Interpretou com classe as personagens mais exóticas: ciganas, cafetinas, prostitutas chinesas, cabareteiras. Nunca foi menos que sedutora. Teve grandes amores, com homens e mulheres.
Nos anos 50, começou a trocar o cinema pelo palco, apresentando-se em shows com voz rouca e sensual. Parou com eles ao cair num palco em Sydney, quebrando a perna. As pernas de Marlene: foram tão decantadas em prosa e verso que ela chegou a se revoltar. Entre os seus fãs ardorosos havia um certo Adolf Hitler. Marlene não se deixou enganar por ele e virou ativista do antinazismo. Por causa disso, chegou a ser chamada de traidora da pátria alemã. Teria sujado sua biografia se vivesse sob o signo da suástica.


