São Paulo, 20 (AE) - No início, vê-se a equipe de filmagem armando a produção na caatinga. A câmera parece buscar um espaço para mostrar tudo, mas não consegue. Aos poucos vai achando seu quadro, bate a claquete e a história, propriamente dita, começa. "São Jerônimo" (amanhã (21), às 18 h no Cinesesc), o novo filme de Julio Bressane, não conta, propriamente, a saga de um religioso. É, mais uma vez, uma interpretação pessoal sobre o conhecimento acumulado - o processo cultural, para quem quiser usar outra nomenclatura.
Um tema caro a Bressane. No caso, ele foi evocar a figura estratégica de Jerônimo, que traduziu os escritos sagrados para o latim e, dessa maneira, conseguiu unificar um conhecimento disperso. Teve importância decisiva para a cultura dos primeiros séculos da era cristã. Enfim, foi uma vida cheia de "acontecimentos" espirituais: teve um sonho que o jogou em crise espiritual, conheceu Gregório, que o iniciou na leitura e tradução dos textos, foi a Roma, serviu ao papa Damaso. Refletiu
orou, escreveu. Como transformar essa biografia em filme?
A resposta de Bressane está na inventividade visual. Por exemplo: Jerônimo (Everaldo Pontes) medita no deserto, que é também o semi-árido brasileiro, o que já produz uma superposição de sentidos. Abriga-se sob uma rocha. Esta se equilibra sobre três pontos. Parece estar ali desde o começo dos tempos. Parece, também, prestes a mover-se ou a tombar. É imóvel, como a fé. Mas essa imobilidade oculta um certo desequilíbrio potencial - como o contraditório movimento de alma de Jerônimo.
Bressane não se contenta em "contar" essa história sagrada - busca filmar o sagrado, num trabalho plástico, denso, cheio de um sentido que não se entrega imediatamente, mas exige algum esforço intelectual do espectador. Um certo exercício espiritual, para quem estiver disposto a praticá-lo. (L.Z.O.)

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