O mistério clássico de Reynaldo Fonseca
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terça-feira, 25 de novembro de 1997
Luiz Claudio Oliveira Curitiba 
ReproduçãoFigura e BichosA Simões de Assis Galeria de Arte está proporcionando a Curitiba a ótima oportunidade de conhecer de perto o trabalho ao mesmo tempo intrigante e marcante do artista plástico pernambucano Reynaldo Fonseca. A exposição fica à disposição do público até o dia 20 de dezembro.
Reynaldo Fonseca é um veterano das artes plásticas brasileiras, nascido em Recife, em 1925. Sua primeira exposição é de 1943, ainda em Recife. Depois ele transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde estudou gravura com Henrique Oswald, no Liceu de Artes e Ofícios, e pintura com Portinari. Na ocasião, participou do antigo Salão Nacional de Arte Moderna (1949 e 1950), obtendo algumas premiações. O Rio e Recife foram suas moradias e pontos de exposições durante muitos anos. Hoje está fixado novamente na Veneza brasileira.
ReproduçãoCena de FamíliaDesde o começo, Reynaldo Fonseca já trilhava um caminho próprio. Isso não era fácil quando se discutia a arte moderna no Brasil, a entrada do abstracionismo, geometrismo e demais modernidades. Ele até admite que pintou telas abstratas, mas não ficou satisfeito com o resultado final.
Intemporal Suas telas têm algumas características fáceis de se notar e a principal delas é a intemporalidade. Olhando para as figuras, não se sabe se elas foram pintadas hoje ou há 300 anos. Nesta exposição, os rostos de quase todos os personagens são enigmáticos (Mona Lisa?), com expressões que não passam praticamente nenhuma emoção. Mesmo as figuras que não são humanas têm essa mesma expressão (cachorros e gatos).
ReproduçãoMeninaUm de seus quadros, um óleo sobre tela de 46 cm por 38 cm, apresenta uma figura com traços infantis, que não se distingue por masculina ou feminina, com a mão apoiando o rosto pensativo. O título desta obra é Enigma. Talvez seja ela que mais represente toda a exposição.
Os quadros todos têm algo de misterioso, um clima sombrio, noir, mesmo que os temas sejam de reuniões familiares, com animais domésticos. Mas tem também seus bailes de máscara. O clima dos quadros é clássico, com influências claras (e escuras) da pintura renascentista. É ao mesmo tempo antiga e moderna.
ReproduçãoCafezinhoNenhum outro pintor brasileiro tem essa capacidade de criar um clima surreal na pintura, sem ser surrealista na acepção, como Reynaldo Fonseca. Artista meticuloso, constrói suas telas com o desenho, com luz, com a cor, escreve o crítico de arte carioca Geraldo Edson de Andrade que assina o texto de apresentação do catálogo da exposição.
Humanismo Não pretende documentar sua época, tampouco os dramas sociais da região onde nasceu, como já lhe foi cobrado, quando sua posição diante dos fatos é mais humanista do que política. Suas mulheres e crianças, principalmente, estão sempre envoltas pelo mistério do gesto. Paira em cada uma delas atmosfera poeticamente dramática, que ele transcende pela magia da pintura explica Andrade.
ReproduçäoReynaldo Fonseca estava desde 1988 sem realizar uma exposição individual. Em 1993 houve uma mostra dos trabalhos do pintor, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, mas cedidas por colecionadores, sem novas telas. As negociações com Waldir Simões de Assis para trazer suas obras a Curitiba vem de anos. Só agora deu certo, como explica Assis: Há dois anos, mais desincompatibilizado de seus compromissos, aceitou o nosso desafio posto que há anos não expunha individualmente, passando então a produzir as obras para a exposição. Estas nos foram enviadas uma a uma e pacientemente guardadas para agora serem levadas ao público curitibano.
Reynaldo Fonseca - exposição individual. Na Simões de Assis Galeria de Arte - Alameda D. Pedro II, 155, em Curitiba. Telefones: (041) 232-2315 e 233-3389. Até 20 de dezembro.


