O milagre do tempo
Já quis passar um réveillon voando como uma sobrinha, que vai embarcar para a Austrália na próxima semana. Como ela, queria ficar acima da Terra e perto das estrelas na noite de 31 de dezembro, para saber se alguma coisa acontece quando se cruza no ar a fronteira do tempo.
Quem sabe um brilho diferente, a companhia dos magos, a visão de um E.T. Quem sabe a luz de alguma raridade, Cartola cantando um samba, coisas que se veem do céu e que do chão nossa vista não alcança. Fico feliz por ela realizar meu sonho de Ícaro em data especial.
O fato é que à meia-noite, quando nos despedimos de um ano e embarcamos em outro, acreditamos no milagre da transformação, como se fossemos outras pessoas a despontar no calendário.
Por outro lado, não quero ser desmancha prazeres mas, daqui a uma semana, seremos devolvidos à rotina, com pensamentos reciclados, é verdade. Talvez mais pacientes, mais generosos, mais esperançosos, porque alguma coisa tem de acontecer depois de tanta torcida, dando o primeiro passo com o pé direito, uma figa à esquerda, vestidos de branco, comendo romãs e olhando os fogos como chineses que descobrem a pólvora.
Mas ainda não será desta vez que vou passar o réveillon voando. Estou em Jaú, no interior de São Paulo, terra da poeta Hilda Hilst e do piloto João Ribeiro de Barros, primeiro homem a cruzar o Atlântico num avião. Daí esta minha lembrança sobre soltar as asas.
Para impedir o brasileiro de ser um pioneiro dos ares, os europeus fizeram de tudo. Os italianos colocaram terra e sabão no tanque do hidroavião Jahu, que borbulhava, mas não voava. Com a sabotagem, o piloto foi obrigado a fazer um pouso de emergência em Gibraltar e, graças às habilidades do mecânico Vasco Cinquini, conseguiu decolar e prosseguir viagem, cumprindo uma missão quase impossível, igualzinha àquelas que a gente quer realizar a cada ano.
A epopéia aérea durou 9 meses, de outubro de 1926 a julho de 1927. Tempo parecido com o que se gasta hoje nos aeroportos para uma ''viagem rápida'', tentando ir de São Paulo a Recife, em épocas de aeroportos lotados. Pensando bem, prefiro passar o ano aqui na Terra. Quero distância de aviões e dos apagões aéreos. Voar só se for nas asas de um anjo que me leve, sem turbulência, àquela tal felicidade. Mas não por acaso, existem calendários, como diz Drummond no poema ''Cortar o tempo'':
Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra
vez com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui para adiante vai ser diferente...
Desejo um Feliz 2011 a todos os ''passageiros'' destas minhas crônicas de domingo.
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