Reprodução‘‘Não me casei,não tive filhos,não planteiárvores, apenas alguns arbustos.’’A história da literatura brasileira, em alguns momentos, possui a péssima mania de colocar belas obras dentro da empoeirada gaveta de sua escrivaninha. Ali, elas permanecem esquecidas entre volumosos tratados literários estéreis. Desconhecidas, ficam exiladas de seus possíveis leitores.
Os belos contos do escritor mineiro Murilo Rubião (1916 - 1991) permaneceram, durante décadas e décadas, aprisionados nesta gaveta esperando por ar puro e leitores limpos. Rubião publicou seu primeiro livro (‘‘O Ex-Mágico’’) em 1947. Poucos deram-lhe a devida atenção. Publicou o segundo (‘‘A Estrela Vermelha’’) em 1953. Poucos entenderam a originalidade de suas histórias. Seus textos fugiam das regras conhecidas, trabalhavam com o irreal e o absurdo de maneira verdadeira, real. As situações mais inverossímeis de seus personagens se tornavam comuns, rotineiras. Suas histórias concediam ao absurdo um lógica exata e palpável.
A Editora Ática acaba de publicar, em momento devido, a primeira edição completa dos contos de Rubião. ‘‘Contos Reunidos’’ traz 33 histórias, entre elas a inédita ‘‘A Diáspora’’, concluído pouco antes de sua morte.
Murilo Rubião não produziu uma vasta obra. Em síntese publicou apenas três livros. Os restantes apresentam as mesmas histórias reescritas, com outros títulos, nome de personagens trocados ou, em alguna casos, com o final alterado. Sua insistência em escrever e reescrever seus textos, alterando-os mesmo depois de publicados, era defendida da seguinte forma: ‘‘Reelaboro a minha linguagem até a exaustão, numa busca desesperada da clareza, para tornar o conto o mais real possível.’’
Na realidade, sabe-se hoje, Murilo Rubião foi o primeiro escritor do gênero fantástico na literatura brasileira. Gênero este que ganhou notoriedade mundial com escritores latino-americanos como Gabriel Garcia Márquez, Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. Outro importante detalhe é a semelhança de sua temática com a do escritor tcheco Franz Kafka (1883 - 1924). Segundo consta, Rubião somente conheceu a obra de Kafka depois de ter publicado dois livros. O primeiro a notar a semelhança entre ambos foi Mário de Andrade.
Nos contos de Rubião, o fantástico materializa-se em realidade. Eles revelam, invariavelmente, situações que caminham para a total ausência de solução. Qualquer tipo de resolução apresenta-se cada vez mais distante, impossível. Apesar de usar epígrafe bíblicas em todas suas histórias, não há nenhum tipo de salvação para seus personagens. Eles estão condenado à repetição e à metamorfose. Com ironia crítica, o escritor revela as impossibilidade da realidade e da própria vida.
Os dados biográficos de Murilo Rubião revelam um homem comum, pacato, quieto em seu canto. Nasceu em julho de 1916 no interior de Minas Gerais. Formado em Direito, trabalhou em jornais, revistas e rádios de Belo Horizonte. A partir da década de 40 entrou para o mundo do funcionalismo público trabalhando em vários setores de órgãos públicos mineiros. Chegou a ocupar, em 1952, o cargo de chefe de gabinete do então governador Juscelino Kubitschek. Faleceu em 1991, deixando uma frase que resumia sua biografia: ‘‘Não me casei, não tive filhos, não plantei árvores, apenas alguns arbustos.’’

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