'O Mez da Grippe', de Valêncio Xavier, ganha segunda edição
Em obra experimental, autor revela que toda pandemia produz seu bufão
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de junho de 2020
Em obra experimental, autor revela que toda pandemia produz seu bufão
Marcos Losnak/ Especial para Folha 2 

Um século atrás o mundo viveu uma epidemia que infectou um quarto da população mundial e provocou a morte de 50 a 100 milhões de pessoas. A gripe espanhola (ou influenza espanhola), como ficou conhecida, era considerada pior pandemia da humanidade até o aparecimento da covid-19. Foi propagada no ano de 1918 pelos soldados que lutavam na Primeira Guerra Mundial.
O Brasil também sofreu com a pandemia, que assustou principalmente a população das grandes cidades. No Paraná o grande foco ocorreu na cidade de Curitiba, com quase 400 mortos entre outubro e dezembro de 1918, época em que a cidade contava com aproximadamente 70 mil habitantes.
O escritor e cineasta Valêncio Xavier transformou esse fato numa experiência literária inovadora no livro “O Mez da Grippe”. Publicado originalmente em 1981 pela Fundação Cultural de Curitiba, a obra foi relançada em 1998 pela editora Companhia das Letras recebendo o Prêmio Jabuti de 1999 na categoria Produção Editorial.
Híbrido de texto e imagem, “O Mez da Grippe” é formado por três narrativas principais, paralelas e simultâneas. A primeira narrativa traz recortes de jornais curitibanos da época retratando o cotidiano da epidemia na cidade. Também traz documentos dos órgãos de saúde sobre o enfrentamento da doença e manchetes da Primeira Guerra Mundial. São utilizados notícias, fotografias, comunicados e anúncios publicitários de 22 de outubro de 1918 a 3 de dezembro de 2019 dos jornais “Commercio do Paraná” e “Diário da Tarde”. O livro preserva a ortografia da língua portuguesa vigente na época, muito diferente da utilizada nos dia atuais.


A segunda narrativa traz as palavras de Dona Lúcia, uma senhora curitibana que, em 1976, relembra os episódios presenciados por ela durante a epidemia. Palavras de uma sobrevivente. Palavras de uma testemunha ocular: “Naquela casa morreram sete, era o pai chegar de um enterro já tinha de levar outro filho para o cemitério. Ele mesmo fazia os caixões. No fim, faltou madeira.”
A terceira narrativa traz os versos poéticos de um misterioso homem que se aproveita da epidemia para viver aventuras sexuais. Tirando vantagem do isolamento das pessoas em suas casas e das ruas vazias da cidade, sorrateiramente invade residências8 de moças enfermas ardendo e delirando de febre. São poemas eróticos que subvertem a comoção coletiva da pandemia em nome de um cínico desejo individual.
Valêncio Xavier apresenta simultaneamente as narrativas em forma de colagem para criar um conteúdo que representa conexões entre as três narrativas. Conexões que podem ser consideradas uma quarta narrativa, uma literatura experimental carregada de originalidade.
Um dos episódios presentes em “O Mez da Grippe” está noticiado pelos jornais como “proeza macabra da pandemia”. O fato teria ocorrido no Hospício Nossa Senhora da Luz de Curitiba. Na bela manhã de 1 de janeiro de 2019, o interno Manoel de Campos, de 22 anos, considerado moço pacífico por todos, contrai a gripe espanhola.
Contaminado pelo vírus, desnorteado pela febre, o rapaz entra em surto, Arranca muleta de um aleijado e com o objeto começa a espancar outros internos: “Numa ancia de matar, olhos injectados de sangue, a faiscarem, o louco, sempre com a trágica molleta já rubra e cheia de massa encephalica de suas victimas saiu um busca de outros. Em quantos que encontrava, o louco desferia pancadas. Naquele aranzel, naquella confusão que se estabeleceu, as irmãs de caridade fugiam, velhos e mendigos ali reclusos se ocultavam, até que após uma lucta perigosa, o infeliz demente foi subjugado pelos empregados que o puzeram em camisa de força, recolhendo-o a uma cella. Enquanto, no solo, em meio a uma profusão de sangue, jaziam cadáveres de quatro pessoas.”
Episódios como esse, de 100 anos atrás, que se encaixam tanto no âmbito da realidade quanto campo da ficção, oferecem um entendimento picaresco da pandemia do passado. Entendimento semelhante ao encontrado nos dias atuais de covid-19, onde palpites emocionais e caricatos suplantam fatos concretos e métodos científicos. Em outras palavras, toda pandemia possui seu bufão.
Valêncio Xavier nasceu na cidade de São Paulo em 1933. Ainda jovem mudou-se para Curitiba, cidade em que viveu até falecer em 2008, aos 75 anos de idade, vítima de pneumonia. Deixou 12 livros publicados. A primeira edição de “O Mez da Grippe” hoje é encontrada apenas nas mãos de colecionadores. A segunda edição, esgotada, ainda pode ser encontrada em sebos.
Serviço:

Primeira Edição:
“O Mez da Grippe”
Autor – Valêncio Xavier
Editora – Fundação Cultural de Curitiba

Segunda Edição:
“O Mez da Grippe e Outras Histórias”
Autor – Valêncio Xavier
Editora – Companhia das Letras


