O meu amigo ''Bobo Plin''
Luciano Bitencourt
De Londrina
Especial para a Folha2
Plínio Marcos morreu. Repeti isso muitas vezes nos últimos dias. Como que tentando aceitar o fim de uma pessoa próxima. E, de fato, Plínio Marcos se tornou um grande amigo nos últimos anos. Daqueles que a gente vê poucas vezes na vida e que, de alguma forma, está sempre presente.
A aproximação com o dramaturgo aconteceu em 1996, quando o grupo Boca de Baco pesquisava textos de autores brasileiros para uma montagem. O grupo (do qual eu era ator na época) já conhecia, em parte, a obra de Plínio Marcos. Mas, após uma leitura mais atenta de suas peças, ele nos cativou.
Em 1998, tivemos nosso primeiro encontro, quando o Boca de Baco convidou-o para um debate e para assistir à reestréia de O Abajur Lilás. Tudo foi cercado de muito receio e expectativa. Afinal, como um dramaturgo consagrado iria reagir à topetice de um grupo de teatro amador que resolveu montar uma peça que por si só é um capítulo à parte na história do teatro brasileiro? Além disso, Plínio tinha fama (falsa, veríamos) de polemista, impiedoso e cruel em seus comentários e, não raro, mal-humorado.
E assim, receosos e trêmulos, fomos recepcioná-lo no aeroporto. Alguns minutos de espera e sua figura inconfundível gorro, camisa jeans e camiseta, pochete a tiracolo, sandálias de couro apareceu diante de nós. Logo tomamos o rumo do hotel, cumprindo uma programação rigidamente estabelecida. Em poucos minutos ele disse: Caraco, vocês não estão me levando para cama, não é mesmo? Quero passear e rever esta cidade de homens inteligentes e lindas mulheres.
A partir de então, Plínio, o terrível, começou a se transfigurar num homem doce, brincalhão e bem-humorado o Bobo Plin, como ele mesmo se definiu tantas vezes, em prosa e verso. Um homem sincero, sem amarras na língua e no pensamento. Mas sobretudo generoso com todos que se aproximassem dele de coração aberto.
Já na primeira vez em que sentamos para conversar ele afastou qualquer indício de afetação teatral. Disse que quase não ia mais ao teatro. Só se for pra ver gente que gosto muito. Se não, prefiro ver futebol ou arrastar minhas sandálias até a esquina, pra conversar com os amigos.
Vai ver que foi por isso que, nos três dias que esteve entre nós, pouco comentou sobre teatro. Deixou claro que queria mais era estar com a gente em pouco tempo ele só se referia ao Boca como o nosso grupo e colecionar histórias em sua breve passagem por Londrina.
Surpreendente Plin! Num programa de entrevista de uma TV local, quando falava sobre seu início de carreira, disse que quem me vê assim, gordão desse jeito, não imagina como eu era magro. Eu era tão magro, mas tão magro, que quando ficava de pau duro caía para frente. O experiente apresentador do programa ficou branco, gaguejou e continuou a entrevista, não sabemos por que, pisando em ovos.
Guloso Plin! Quando almoçava num tradicional restaurante da cidade cujo dono era um velho amigo seu, dos tempos em que Londrina tinha uma das maiores e melhores zonas do País, se engasgou com um fio de cabelo na comida. Eu, constrangido, já ia chamar o garçom, quando Plínio pegou o tal fio de cabelo, jogou do lado e disse: deve ser da moça que fez isso aqui. Depois, continuou comendo com gosto sua comida.
Adorável Plin! Depois da reestréia da peça, estávamos todos numa cantina da cidade, felizes porque tudo dera certo, e de repente um fã exaltado vem até nossa mesa e começa falar de sua admiração por Plínio Marcos. Contou que o havia conhecido há muitos anos, no Rio Grande do Sul, que assistia a todas as suas peças, que até já havia encenado Dois Perdidos, que isso e aquilo outro. Minutos depois de uma conversa em que só ele falava, emendou: E, dia desses, te vi na TV. Plínio não aguentou: Ah, foi você! O fã caiu em si, ficou mudo. Plínio percebeu o embaraço do rapaz e, com a doçura que nos dera a conhecer, convidou-o para sentar-se à mesa e beber uma taça de vinho branco única bebida que se permitiu beber enquanto esteve em Londrina.
Aqueles três dias com Plínio transcorreram assim: risonhos, surpreendentes, plenos. No dia da partida éramos, grupo e autor, velhos camaradas. Nós já com saudades. Ele prometendo voltar e louco para cair nos braços de sua Verinha (Vera Artaxo, sua esposa). Quando finalmente embarcou, sob uma chuva fina e fria, tive a sensação de que cada um de nós o levaríamos existência afora. Bobo Plin vive!
O QUE ELE DISSE
Há dois anos não escrevo nada, porque estou tentando escrever sem pensar. As pessoas não devem pensar, pois a nossa cabeça é cheia de truques, recalques e preconceitos acumulados em nosso subconsciente desde quando ainda estávamos na barriga de nossas mães. As pessoas devem pensar e agir com o coração, é muito melhor, você se entrega mais. Toda vez que penso, eu leso alguém. Então, estou tentando escrever sem pensar. (outubro/83, Folha de Londrina)
Eu nasci para contar a história dessa gente que berra da geral sem nunca influir no resultado. (outubro/83, Folha de Londrina)
Não, eu não faço personagens que desafiam as platéias. Se você fizer uma leitura adequada de minhas peças, vai ver que meus pederastas e prostitutas são a própria platéia, são toda a sociedade. (maio/86, Folha de Londrina)
A arte foi completamente dominada pelo poder econômico, e este é um tipo de censura violentíssimo. (agosto/98, Folha de Londrina)





