O escritor, diretor, produtor e compositor Chuck Lorre, que criou várias sitcoms americanas de grande sucesso ("Two and a Half Men", The Big Bang Theory" e "Mom", entre outras), domina como poucos a arte da comédia televisiva. Sua última façanha foi conectar recentemente milhões de espectadores - via streaming, é claro - às desventuras e achaques de dois militantes da terceira idade e amigos de uma vida, Sandy e Norman (Michael Douglas e Alan Arkin), em "O Método Kominski", a comédia revelação de 2018 e que entra em 2019 ainda colhendo frutos de sua excelência, como o Globo de Ouro para melhor série de comédia e melhor ator para Douglas.

Michael Douglas e Alan Arkin em 'O Método Kominski': revelação de 2018 ainda colhendo frutos de sua excelência, como o Globo de Ouro para melhor série de comédia e melhor ator para Douglas
Michael Douglas e Alan Arkin em 'O Método Kominski': revelação de 2018 ainda colhendo frutos de sua excelência, como o Globo de Ouro para melhor série de comédia e melhor ator para Douglas | Foto: Divulgação



A série produzida pela Netflix, de apenas 8 episódios, é um notável mano a mano entre os dois veteranos intérpretes. E entre outras coisas fala sobre como o tempero agridoce pode e deve prevalecer na arte do envelhecimento. Sem edulcorar o tom,optando pelo humor permeado pela acidez e a esperteza da melhor autoindulgência. Douglas dá vida a Sandy Kominsky, ator com melhor passado que presente que trabalha como professor de interpretação em sua própria academia. Sempre com a presença e eventual ajuda de Norman (Arkin), seu melhor amigo e também o bem sucedido agente que o ajudou a construir uma carreira teatral que rendeu um Tony Award .

"O Método Kominski" é notável tragicomédia, um blend de momentos sérios e cômicos, no qual humor e drama ocupam alternadamente a balança bem calibrada do roteirista Chuck Lorre, que mostra não poucos rasgos de genialidade ao retratar esta amizade entre homens - "Two and a Half Man" e "The Big Bang Theory" são os melhores exemplos anteriores. As considerações de que somos perecíveis e, portanto, mortais, são arroladas com agilidade e frescor, que incluem relações familiares e a aceitação do outro, com suas virtudes e defeitos. Lorre não prescinde da busca de amores perduráveis, à imagem e semelhança do que uniu (e segue unindo) Norman/Arkin e sua mulher Aileen, morta recentemente.

A série, que sem quedas de ritmo exala muita simpatia, é um inteligente compêndio para se lidar com a ideia, muitas vezes sombria, do passar dos anos e seu irrefreável poder de erosão. É possível se emocionar com várias situações, mas nenhuma delas abre mão do efeito corrosivo do humor - casos do hilário funeral da mulher de Norman e da consulta ao urologista que atende Sandy (ninguém menos que Danny De Vito, que anteriormente já interagiu às mil maravilhas com Douglas em "A Guerra dos Roses" e "Tudo por uma Esmeralda").

Os capítulos são na maioria dirigidos por experts em comédia, como Andy Tennant e Daniel Petrie, que sabem manter um nível medianamente elegantes com as piadas de conotação sexual, ou em relação à próstata de Sandy. O recurso das aulas de teatro como subtexto de temas de fundo, ou para enriquecer os personagens, se revela particularmente eficaz.

Fala-se de uma segunda temporada. Prescindível, quando não inútil.

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