O mestre do suspense tinha medo do escuro
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de julho de 1998
Isadora Andrade Cult Press 
Alfred Hitchcock, diretor de thrillers consagrados como Psicose e Os Pássaros, podia ser o mestre do suspense, mas assustava-se com facilidade. E dificilmente dormia sozinho no escuro. O trauma veio da infância. Um dia acordou de madrugada e descobriu que estava sozinho em casa. Em pânico, pegou um pedaço de carne fria e comeu, entre tremores e lágrimas. Desde então, Hitchcock passou a temer o escuro e a odiar carnes frias. A confissão está em Hitchcock por Hitchcock (240 páginas/Imago Editora/R$ 35), coletânea de artigos e ensaios do diretor e organizado por Sidney Gottlieb, professor de inglês da Universidade de Sacred Heart, em Connecticut, EUA. Além de histórias curiosas, Gottlieb reuniu pérolas que traçam um perfil dócil e irônico de Hitchcock.
A trajetória do diretor no meio cinematográfico é narrada através de depoimentos a jornais e revistas especializadas. Hitchcock começou a carreira em 1919, nos estúdios da Paramount, em Londres. Ali aprendeu a roteirizar, editar e dirigir filmes. De aparência séria e compenetrada, no livro o diretor se revela falante e bem-humorado. Através dos ensaios, também confirma a personalidade manipuladora e o estilo de direção tirânico temido pelos atores que trabalharam com ele.
O livro é dividido em quatro capítulos organizados por temas variados. A relação com os atores é relatada logo no segundo. Hitchcock desmente a fama de detestar atores e aproveita para elogiar o desempenho de alguns que participaram de filmes seus, como Peter Lorre e Virgínia Valli. A atriz americana, por exemplo, participou de The Pleasure Garden, o primeiro longa do diretor, filmado em 1925 na Alemanha. Com humor refinado, Hitchcock relata as dificuldades que passou na estréia como diretor. Sem verba para pagar a produção, blefou várias vezes e chegou até a pedir dinheiro para a protagonista do filme para pagar o hotel.
As histórias trazem desde os bastidores desse pouquíssimo visto filme de estréia - que era mudo mas em 1944, com o acréscimo de algumas cenas, ganhou som - até de sucessos como Festim Diabólico. Um dos melhores ensaios é o que fala do prazer do medo. Hitchcock deixa clara a influência do escritor Edgar Allan Poe em seus filmes. Foi a partir dos contos do criador do moderno detetive e conterrâneo que o diretor começou a fazer obras de suspense. Uma história completamente inverossímil, contada aos leitores com tamanha lógica alucinatória que se tem a impressão de que ela pode acontecer conosco amanhã, argumenta Hitchcock ao falar das histórias de Poe.
A paixão pelo mundo do crime também foi determinante na carreira do diretor. Várias vezes cita o desejo de ter sido um criminalista e, talvez por isso tenha se tornado mestre em filmes de tirar o fôlego.
Quando fala da vida pessoal, Hitchcock mostra um lado tímido e dependente. Principalmente quando encontrava-se ao lado da mulher, Alma. Foi nos sets de filmagem que Hitchcock conheceu a assistente de direção e futura esposa. Os dois viajavam num navio indo de Munique para Londres e Alma estava enjoada com o balanço das ondas. Ele a pediu em casamento e a moça, depois de gemer, concordou com a cabeça e arrotou. Foi uma das minhas melhores cenas, talvez um pouco fraca em termos de diálogo, mas lindamente executada e interpretada sem exageros, triunfa, com ironia.
Em Hitchcock por Hitchcock Gottlieb mostra um diretor que talvez não escreva com o mesmo prazer, mas com, pelo menos, a mesma graça com que faz filmes. Apesar de algumas histórias repetidas em ensaios diferentes, a coletânea revela a língua ferina e o senso autocrítico do mestre do suspense.


