Assim como João Gilberto com o violão, ninguém conseguiu até hoje imitar o jeito peculiar de Luiz Gonzaga tocar a sanfona. A técnica ou o resfolego é exaltada por muitos seguidores em ''As Sanfonas do Lua''. A puxada de fole, o choro da sanfona não é algo fácil de reproduzir, mesmo aos mais aplicados músicos. A isso junte-se o carisma desse cabra macho que se impôs no Sul do País, numa época em que o preconceito contra o nordestino era latente como o sol de Exu, pequena cidade do interior pernambucano onde nasceu em 13 de dezembro de 1912. ''O cabra pode tá morto, deitado. Mas se escutar o forró de Luis Gonzaga se levanta ligeiro e vai dançar'', diz Zé de Benona.
Antes de conquistar se consagrar como um dos mestres da MPB, Luiz Gonzaga enfrentou raio e corisco. Metáforas à parte, Gonzagão precisou lutar para mostrar que o nordestino, antes de um forte, merecia ser ouvido. Que tinha uma riqueza musical merecedora de atenção. Quase adulto, apaixonou-se por uma moça de posses cuja família não aprovava o namoro com ''aquele preto''. A mãe do rapaz o proibiu de vê-la para evitar maiores humilhações.
Atordoado, fugiu e alistou-se no exército onde conviveu durante nove anos como... corneteiro. De Fortaleza, foi para Juiz de Fora, São Paulo e finalmente chegou ao Rio de Janeiro. Na dita cidade maravilhosa, tocou em bordéis. O destino estava traçado e, anos depois, foi contratado pela Rádio Nacional como acompanhante e não cantor ordens expressas do compositor Fernando Lobo, pai de Edu, então diretor da emissora.
Era a primeira etapa de uma luta para se valer como artista completo com estilo próprio, inclusive nas vestimentas alusivas a Virgulino Ferreira, o cangaceiro lampião. Foi deste jeito que alcançou popularidade, embora para a classe burguesa sua música ainda fosse rotulada como folclórica. Impôs-se e fez-se respeitar como artista que trazia ao Sul maravilha o suingue do baião. Daí, veio o contrato com a RCA Vitor, hoje BMG. Sucessos e sucessos, discos e mais discos.
O maior sucesso, ''Asa Branca'' (em parceria com Humberto Teixeira) foi gravado em 1947 e recebeu um sem-número de releituras. Até meados da década de 50, era um sucesso avassalador. Veio a Bossa Nova e com ela, o ostracismo para não dizer total, apresentava-se em shows pelo interior do País. Mantinha a popularidade, mas a quantidade de discos caia consideravelmente. Na década de 70, artistas do primeiro escalão da MPB entre eles o filho Gonzaguinha o traziam de volta à cena através de regravações de seus sucessos.
Caetano Veloso, no exílio, fez uma dolorosa versão de ''Asa Branca''. Foi o pontapé inicial. Gilberto Gil fazia valer a sua referência musical e escreveu ''Expresso 2222'' em que, ao violão, tentou trazer o jeito de Gonzagão roncar o fole. Daí em diante, o velho Lua reafirmava-se como tótem, um ícone da música brasileira e não apenas nordestina. Pouco antes de morrer, em 2 de agosto de 1989, com seu jeito ''embotado'' disse a Zé de Benona: ''Eu vou, mas vocês seguram o baião''. E foi para o céu deixando no nordeste não admiradores, mas devotos. (A.M.J.)

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