O MESTRE DO PLIM-PLIM
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de dezembro de 2000
Rodrigo Teixeira TV Press 
José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, tem uma rapidez e clareza de raciocínio impressionantes. Hábil com as palavras, o paulistano de 65 anos, atualmente na função de consultor da Globo, é considerado um dos grandes arquitetos da moderna tevê brasileira. Boni foi o responsável pelo surgimento do chamado padrão Globo de qualidade. Entre suas criações que ajudaram a popularizar a emissora de Roberto Marinho está a vinheta que marca os intervalos comerciais da Globo: o famoso plim-plim. Boni teve a idéia no início dos anos 70, após observar que os comerciais entravam bruscamente na programação e confundiam o espectador. Quase 30 anos depois, é impossível ouvir o plim-plim sem lembrar imediatamente da Rede Globo de Televisão. Não controlamos a criação. Não podemos garantir nem que vá sobreviver ao dia seguinte, pondera modestamente Boni.
Sempre com um sorriso no canto da boca, o homem que foi o todo-poderoso da Globo por 30 anos parece contar os dias para deixar o seu período de desintoxicação. Esta desintoxicaçãocomeçou em 1997, quando Boni passou a ocupar o cargo de consultor da emissora na verdade, uma função figurativa para mantê-lo sob contrato com a Globo, mas sem exercer qualquer influência na programação. O contrato, que vigora até o dia 30 de abril de 2001, o impede de debandar para emissoras concorrentes. Mas Boni não pensa em se aposentar tão cedo. Embora garanta que esteja sem projetos, pelo menos um está encaminhado: comandar uma afiliada da Globo em Taubaté, interior de São Paulo. Vai ser uma estação bem pequena, minimiza.
Como você analisaria o momento da televisão brasileira atualmente?
A televisão, como jornal, revista e todo veículo de comunicação, está sempre em transição. A comunicação tem de estar presente e acompanhando as mutações da sociedade continuamente. De tal forma que o momento da televisão é que ela está apenas encontrando novos caminhos, à medida que ela está tendo de enfrentar novas tecnologias, novas concorrências. Coisas deste tipo. Por isso ela tem de se rever. Mas isso é contínuo. É sempre assim. O mais importante é que o Brasil está montando um sistema de televisão. Você tem a televisão para diversos públicos e utilidades.
Mas você não acha que a tevê aberta está se popularizando demasiadamente?
Sem dúvida. Este é o maior defeito que eu vejo na televisão aberta atualmente. Ela tende a procurar um caminho mais popular para competir com as novas concorrências. Mas eu acho que isso aí é errado. O caminho da televisão aberta é o da qualidade. Só assim ela vai poder enfrentar a concorrência. A popularização, de início, pode ser uma coisa atraente. Mas ela vai esbarrar na dificuldade de conseguir mais verbas publicitárias e não é o caminho para se obter êxito. Ter uma programação de qualidade é a única forma da televisão aberta enfrentar a tevê a cabo. É justamente o que está acontecendo nos Estados Unidos hoje em dia. A televisão americana caminhou para o lado mais popular há alguns anos e agora, novamente, está à procura de qualidade para poder competir com quem produz com qualidade.
Você acredita que a nova portaria do Ministério da Justiça, que classifica os programas por horários, seria um reflexo desta popularização?
Na verdade, o que acho realmente é que a tutela da televisão deve ser entregue à família. Não é o governo que tem de tutelar isso. E quem tem de ajudar a família a digerir o que o veículo vai fazer é a sociedade. Uma coisa privada. Mas é bom que se diga que não há clima para a volta da censura no Brasil. De qualquer forma, nós temos de ficar atentos, porque isso é bastante perigoso.
Quando você criou o plim-plim, imaginava que esta seria uma marca que identificasse tão fortemente a Globo?
De maneira alguma. Na hora que a gente cria, não acha que vai durar nem até o dia seguinte. Imagina tantos anos. O plim-plim surgiu no começo dos anos 70. A idéia veio naturalmente e na hora pensei que poderia dar resultado. O objetivo era criar uma vinheta que emitisse um som que pudesse ser ouvido até nas ruas, vindo de casas e apartamentos distantes, mesmo com o volume baixo do aparelho de tevê. Uma espécie de logotipo sonoro para identificar a Globo.
Você arriscaria fazer uma análise da programação dominical da televisão?
Primeira coisa, eu não tenho nenhuma função executiva na Globo. Então esta análise não cabe a mim. Inclusive ninguém da Globo me pediu e só vou fazer no dia que me pedirem.
Mas você acompanha o Ibope?
É claro. Tenho na minha casa.
Hoje existe até uma polêmica sobre a legitimidade do Ibope. Querem fazer auditoria...
Olha, fazer auditoria em instituto de pesquisa é coisa bastante antiga. Sempre aparece um concorrente que quer contestar estes resultados. Mas a minha experiência com o Ibope dura mais de 50 anos. Eu trabalhava com o Ibope na época do rádio e na publicidade. De tal forma que a minha experiência com o Ibope é que ele é um organismo da maior idoneidade e de uma capacidade técnica muito grande. Não há como contestar, porque eles usam os melhores instrumentos de pesquisa.
Você vai comandar uma retransmissora da Globo no interior de São Paulo?
Isso é para ser uma afiliada da Globo. Uma coisa muito pequenininha, uma estação pequena. E é um projeto junto com a Globo.
Você tem vontade de voltar à ativa?
No momento, eu ainda estou na fase de desintoxicação. O meu contrato com a Globo termina dia 30 de abril de 2001. Só a partir daí vou começar a pensar no que fazer.
O que o levou a lançar o livro 50/50?
Tudo partiu de uma conversa inocente com a atriz Vida Alves, em São Paulo, durante um almoço. Ela queria que eu escrevesse a história da televisão, mas eu não topei. Acabamos chegando à idéia dos 50 depoimentos, 50 programas e 50 datas. Aí quando a gente começa a mexer neste assunto da televisão encontra uma sequência de pessoas que já perdemos, infelizmente. Isso é que dá mais saudade na gente. Por isso, este projeto é dedicado ao Cassiano Gabus Mendes, Dermival Costa Lima, Edson Leite e Walter Clark.
Por que você decidiu não dar um tom biográfico para o livro?
Porque, como nós estamos comemorando os 50 anos da televisão, não tem nada a ver diretamente comigo. É algo muito mais relacionado ao veículo. Então achei que seria bem mais interessante ter um painel de depoimentos. Uma coisa mais humana, em vez de algo biográfico ou mesmo uma história da televisão, que inclusive eu não pretendo contar em nenhum momento. O livro é apenas uma coletânea de depoimentos. Biografia, somente quando eu parar de trabalhar.


