O ano era 1915. O som do piano ecoava pelos imponentes corredores do castelo de Valva, no sul da Itália. Concentrado, de olhos fechados, um pequeno conde italiano, de apenas 10 anos, viajava junto com a melodia irregular que executava no instrumento desafinado. Enquanto os dedos passeavam pelas teclas empoeiradas, o relógio parecia desacelerar; nada mais importava.
Essa sensação ficou guardada na memória do compositor italiano Giacinto Scelsi (1905-1988), que sempre relembrava com carinho de seu primeiro contato com a música improvisada, e do efeito quase mágico que o velho piano exercia sobre seu comportamento rebelde. ''Enquanto estava no piano, me tornava indiferente a qualquer coisa que me fizessem (...) elas (as governantas) aproveitavam aquele momento para pentear meus cabelos, escovar minha cabeça'', relata o próprio Scelsi, em citação do livro ''Un Antico Castello nel Sud dell'Italia'', publicado postumamente em 2005.
Apontado como um compositor revolucionário da segunda metade do século XX, Scelsi foi um dos principais expoentes do método de ''improvisação'' composicional, mas morreu praticamente desconhecido. ''Para entender Scelsi, é preciso contextualizar o que acontece na Arte dentro do século XX. A criação de outras linguagens, que fugiam das do século XIX, vai gerar uma vanguarda também na música: a corrente alemã da Escola de Viena'', ensina o músico, arranjador e multi-instrumentista londrinense André Siqueira, que publicou recentemente o livro ''Giacinto Scelsi - Improvisação, orientalismo e escritura'' (Eduel).
A pesquisa, resultado de sua tese de mestrado em Música pela Universidade Federal de Minas Gerais, aborda a vida e obra do compositor italiano. ''Pelo seu caráter não tão preso à razão, a música de Scelsi foi esquecida pela vanguarda da época, e redescoberta apenas nos últimos trinta anos'', explica Siqueira, que também adota o método da improvisação em seu próprio trabalho como músico.

Improviso como método

Dono de uma biografia polêmica e curiosa, Scelsi, em sua fase mais criativa, afirmava que conseguia ''receber'' as músicas do Universo, rejeitando compor de maneira escrita. Ao invés de trabalhar para escrever as composições de maneira formal, ele usava o improviso como método, gravando suas sessões - feitas com vários instrumentos - em fitas magnéticas. ''O que está lá, está lá. Não é igual você escrever as coisas em um papel e depois arrumar do jeito que acha melhor. A música improvisada acontece no tempo, e não se apaga'', reflete Siqueira. ''Quando você improvisa, precisa se desprender. Tem que deixar de lado os padrões e pensar a música de uma outra forma'', analisa, enquanto dedilha algumas notas no violão.
O músico explica que improvisar, na música, envolve muito mais do que o próprio termo sugere. ''A palavra 'improvisação' pode passar a impressão errada de que 'qualquer um pode fazer isso''', admite Siqueira, ressaltando que é necessário possuir um enorme conhecimento da teoria musical para conseguir utilizar este método de maneira adequada.
''Quando você está improvisando, o seu estado de concentração e de percepção é tão aguçado que permite muitas vezes encontrar soluções e saídas que, em um procedimento racional, parecem impossíveis'', reflete o autor, acrescentando que, ao improvisar, o músico imprime uma forte marca pessoal. ''Acaba sendo muito maior do que se você tivesse escrito a partitura de maneira puramente racional'', explica o autor, justificando o legado que o compositor italiano deixou para a música da posteridade. ''As composições de Scelsi vêm de lugar nenhum e seguem além, para o infinito. Não existe começo e nem fim. Ele foi um compositor radical para sua época. Uma vanguarda dentro da própria vanguarda'', completa.

Trilha sonora

A obra do compositor italiano foi popularizada através de algumas composições peculiares, que são construídas com variações de frequência em uma única nota - Quattro Pezzi su una nota sola é o seu trabalho mais famoso.
O aspecto 'estranho' de sua música foi bem explorado na trilha sonora do longa ''A Ilha do Medo'', de Martin Scorcese, que é citado no prefácio do livro de Siqueira. ''Scorcese explorou bem esse lado imagético de Scelsi, mas a obra dele não traz apenas a ideia de uma 'massa sonora' que se transforma, também existem músicas belíssimas, com muita melodia'', explica o músico, destacando a amplitude do método de improviso. ''As pessoas asssociam imediatamente essa sonoridade tensa a filmes de terror. Mas, para mim, é apenas música, e boa música'', declara, rindo.

Serviço:

- Giacinto Scelsi - Improvisação, orientalismo e escritura
Autor - André R. Siqueira
Editora - Eduel
Preço sugerido - R$ 20
Pontos de venda - Livraria da Eduel, no campus da UEL, e no site da Livraria Cultura

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