O mestre do forró sinfônico
Celina Alonso Az
De Brasília
Especial para a Folha2
Nós, brasileiros, já perdemos muito. Só não podemos perder a nossa identidade. Nós, músicos, precisávamos de pelo menos dez por cento da atenção que é dada ao futebol, disse o multi-instrumentista Sivuca ao público que por três noites superlotou o Clube do Choro, em Brasília.
Do alto dos 60 anos de carreira, mais de 50 discos lançados pelos quatro continentes, reconhecido no exterior com um dos ícones da MPB, o músico, compositor e arranjador Sivuca reduziu suas constantes turnês pelo mundo. Depois de viver durante anos nos Estados Unidos, França e de se apresentar por diversas vezes em países como Suécia, Canadá, Coréia, Japão, África do Sul, Rússia, ele decidiu fincar o pé no Brasil. Mesmo morando no Rio, onde ele e a mulher Glorinha Gadelha ficam intranquilos com tanta violência, Sivuca prefere aproveitar os próximos anos desfrutando das belezas brasileiras. Também por esta razão é que ele cada vez se apresenta menos em grandes turnês.Estou meio de freio de mão puxado por conta dessa tal globalização, meio contemplativo, criando e esperando que as coisas que estão estranhas se acomodem para eu voltar à atividade com todo vapor. Sou partidário do convite e não do marketing. Não gosto desse negócio de fazer marketing para aparecer e poder trabalhar. Se o trabalho aparece eu vou e faço.
As constatações de músico pra lá de consciente sobre ação nefasta da mídia sobre a música nem sempre tão popular brasileira, em nenhum momento abalam o seu vigor no palco. Nos shows que fez no Clube do Choro (quarta, quinta e sexta da semana passada) acompanhado pelo grupo Choro Livre, o sanfoneiro cidadão do mundo, nascido na Paraíba, botou todo mundo para cantar e dançar seus sucessos. Ele apresentou muitas das canções que estão no seu mais recente CD, o Enfim Solo, pela Kuarup, que ganhou prêmio Sharp no ano passado. Neste disco, de músico só tem eu mesmo fazendo piano, acordeon, violão e canto.
Sivuca elogiou a qualidade da produção do CD que ele gravou em sete meses, mas reclama da pouca divulgação. A Kuarup produz muito bem, mas não distribui tão bem assim. Não tenho nada contra a gravadora, que é independente e faz produções maravilhosas, mas acho que o poder de fogo deles é maior no exterior do que no Brasil.
Com mais de 50 discos gravados e lançados em diversos países e dezenas de turnês, Sivuca deixa transparecer uma pontinha de mágoa com a situação de desatenção em que grandes nomes alguns monstros sagrados da MPB se encontram. Estou um pouco apreensivo. Analiso este panorama com ceticismo, com medo dessa ditadura econômica. Com isso, as verdadeiras manifestações culturais perdem ponto e a cultura atrofia dando lugar a um tipo de trabalho indesejável para a educação musical das novas gerações. Sivuca diz que algumas mudanças básicas poderiam melhorar o quadro. Precisava acontecer uma melhor distribuição de renda, de educação, de mais preparo, da correção dos rumos dos meios de comunicação.
Profundo conhecedor da história e dos compositores brasileiros que interpreta com genialidade, Sivuca aproveita o palco para fazer suas piadas: A Música popular brasileira já nasceu com preconceito. Na inauguração do Cassino da Pampulha era proibido tocar música brasileira. Ernesto Nazaré tinha medo de dizer que tocava choro e dizia que compunha tango brasileiro.
Sobre Hermeto Paschoal, seu sósia na figura e no talento, ele diz É o Beethoven do século XX. Dizem que todos os dias, quando Hermeto desperta, e se olha no espelho ele diz Bom dia, Sivuca.





