‘‘Existe a regra e a exceção. A arte é a exceção’’. Com esta idéia Jean-Luc Godard resumiu 40 anos de dissidência em seu filme autobiográfico ‘‘JLG’’, de 1994. Sem deixar espaço a dúvidas, para o ‘‘enfant terrible’’ do cinema francês, septuagenário a partir de hoje, fazer filmes foi romper regras. Sempre. Em nenhum diretor se encontra uma tal vontade de levar o cinema a extremos. Como a dele.
Desde suas primeiras experiências como crítico - primeiro em ‘‘La Gazette du Cinéma’’ e logo nos ‘‘Cahiers du Cinéma’’ - nos anos 50, Godard recusaria a restritiva concepção do cinema como naturalismo dramático. Busca os embasamentos puros da linguagem audiovisual ao mesmo tempo em que manifesta crítica feroz a pontos de vista excessivamente psicológicos ou históricos que tomavam conta do cinema na metade do século. E esta preocupação é que vai guiar seus primeiros passos no terreno da realização, sempre acompanhada de suas obsessões pessoais e sociológicas. Nesta configuração, é um dos realizadores que melhor se enquadra na tese de ‘‘cinema de autor’’, proposta pelo teórico André Bazin e incondicionalmente defendida pelos ‘‘Cahiers du Cinéma’’. Sua necessidade de converter o cinema em um discurso reflexico e conceitual, escrito em linguagem absolutamente particular, o transforma na encarnação da idéia da ‘‘Camérastylo’’, ou câmera-caneta tão cara a um contemporâneo, o também crítico e cineasta Alexandre Astruc.
Jean-Luc Godard é o realizador que mais influenciou a linguagem audiovisual contemporânea. Os planos fragmentários, os cortes bruscos e as imagens tipo flash que inundam o dia a dia da mídia eletrônica, seja no discurso publicitário, seja no videoclip, estão em débito permanente com o mestre francês. Cineastas como o americano Oliver Stone, o chinês Wong Kar-wai, e até mesmo o Woody Allen de ‘‘Desconstruindo Harry’’ não deixam de utilizar o corte sobre o mesmo plano - traço diferenciador e pioneiro na linguagem de Godard.
Das páginas dos ‘‘Cahiers...’’ diretamente para trás das câmeras. Em seus primeiros curtas já desfila um estilo experimental e corrosivo. Em 1959, em cima de uma idéia de François Tuffaut e com Claude Chabrol como assistente, também colegas de primeira hora na rebeldia da ‘‘nouvelle vague’’, ou nova onda, Godard realiza seu primeiro longa, ‘‘A Bout de Souffle’’, no Brasil ‘‘Acossado’’. O filme é um estudo crítico do ‘‘film noir’’ americano. Todos os elementos básicos e necessários para o gênero estão presentes: suspense, ação, perseguição e certamente amor e traição, com boa dose de lirismo e delicadeza. Mas o filme revela sua nacionalidade em longos planos-sequência com diálogos interpretados por Jean Paul Belmondo e Jean Seberg. Para construir estas sequências, Raoul Coutard - diretor de fotografia e fiel escudeiro de Godard - usou de mais engenho do que arte quando acoplou a câmera numa cadeira de rodas para dar mais fluidez e versatilidade aos travellings - movimentos de câmera horizontais ou verticais, para frente ou para trás. Graças a Coutard se devem momentos memoráveis onde a câmera - muitas vezes na mão, influência decisiva para Glauber nos caminhos cinemanovistas - vai e vem enquanto os personagens passeiam pelos Champs Elisées, boulevares, escritórios e outros interiores de prédios em Paris, convertida afinal num set de filmagens a céu aberto.
Este ‘‘thriller’’ nada comum conta uma história pouco original, até mesmo desprezada por muitos críticos e historiadores. É a última aventura de Michel (Belmondo), um fugitivo da justiça que chega a Paris logo depois de matar um policial. Ele procura a amiga Patricia (Seberg), americana estudando na Sorbonne com aspirações a escritora. Michel se esconde no apartamento dela e mantém um romance enquanto tenta resolver seus negócios escusos. A polícia fecha o cerco e interroga Patricia. Michel escapa mais uma vez. Acuada, a dupla se refugia na casa de uma amiga sueca. Patricia sente que sua vida se complica, presente o futuro sem perspectivas, e para convencer a si mesma que não quer Michel o denuncia à polícia. O fugitivo é perseguido e morto a tiros na rua. Assim é a morte de um dos mais simpáticos delinquentes do ‘‘filme noir’’. O ágil e feioso Poincard/Belmondo é uma daquelas figuras que acreditam somente em si mesmas. E isto fica claro pela relação que ele mantém com os objetos a sua volta: cigarros, o chapéu, os jornais.
Anarquista como poucos, Godard se negou a utilizar um roteiro técnico pré-estabelecido quando filmou ‘‘Acossado’’. Ao terminar de rodar, a surpresa: o filme era longo em demasia. Ao invés de encurtá-lo suprimindo cenas inteiras, o diretor cortou fragmentos de sequências e até mesmo de cenas. Desta maneira apareceu um estilo feito de transições bruscas e entrecortadas. Meio acidental, meio intuitivo a princípio, mais tarde cavalo de batalha cerebral. O estilo Godard. Com esta obra de antologia, Godard contribuiu decisivamente para o nascimento da ‘‘nouvelle vague’’. ‘‘Acossado’’ funciona mais ou menos como uma declaração de princípios, como a chave para a compreensão daquele que é um dos movimentos mais influentes do cinema.
No Festival de Cannes deste ano, um filme-surpresa para abrir a programação oficial. Por encomenda da organização, Godard realizou o curta ‘‘L ’Origine du XXI Siecle’’. Em dezessete minutos, ele ofereceu a sua concepção do que vem por aí. Ao desenhar na tela o século 21 ele não é nada otimista. No filme-colagem estamos num campo de filmagem que é mais um campo de batalha. Ao completar 70 anos, o cineasta constata que os referenciais básicos da civilização se perderam. O filme acaba remetendo ao próprio cinema, naturalmente sob a forma de citações, homenagens e praxis. Dos anos 60 para cá pouca coisa mudou na formulação do universo godardiano. Talvez a disposição: se antes havia mais humor e satisfação na prática da guerrilha da câmera, hoje o tom é glacial, mais distante.

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