O compositor, maestro, educador e esteta Hans-Joaquim Koellreutter, que mudou o percurso da música no Brasil, chega hoje a Londrina para participar de uma série de eventos
Um mestre com incontáveis discípulos pelo país chega hoje a Londrina. Hans-Joachim Koellreutter, figura-chave na renovação do ambiente musical brasileiro, vem cumprir mais uma jornada de homenagens intensificando a celebração em torno do aniversário de seus 85 anos.
Ele soprou as velas em setembro. Aqui sua agenda começa hoje às 15 horas com a palestra ‘‘A Música na Era Tecnológica – o Ensino da Música num Mundo Modificado’’, a ser proferida no Anfiteatro do Cesa, na UEL. Amanhã ele senta junto à platéia no Cine Teatro Ouro Verde, a partir de 21 horas, para assistir a um recital com suas obras para piano interpretadas por Sergio Villafranca.
A visita inclui os lançamentos do CD ‘‘Acronon’’ e do vídeo ‘‘Concertos Comentados’’. Ainda dentro da comemoração, a rádio Universidade FM dá continuidade à série ‘‘O pensamento de Koellreutter’’ (iniciada no dia 6 desse mês) levando ao ar programas especiais de segunda a sexta, das 13 às 14 horas. Guru de iniciados em música contemporânea, Koellreutter ostenta um currículo dos mais invejáveis abrangendo composição, regência, teoria e especialmente pedagogia.
Introdutor da música atonal no país, ele participou de polêmicas históricas angariando a simpatia de hordas fascinadas na mesma proporção com que inflamou o ódio de nacionalistas empedernidos. Chegou ao Brasil em 1937 numa espécie de exílio voluntário, fugindo do regime nazista alemão. Tinha então 22 anos, era noivo de uma judia e participava de manifestações anti-fascistas.
O efeito de seu desembarque foi descrito certa vez pelo maestro Júlio Medaglia como ‘‘uma bomba de mil megatons’’. Koellreutter naturalizou-se brasileiro no final dos anos 40. Publicou revistas, redigiu manifestos, elaborou reflexões, organizou festivais, dirigiu instituições, deu aulas, compôs e reformulou o ensino de música no país.
Suas lições deixaram marcas em praticamente todos os grandes nomes da música brasileira com repercussões em outras searas artísticas. Só para ter uma idéia da legião de seus alunos ou admiradores, basta mencionar o já citado Julio Medaglia, Rogério Duprat e Benito Juarez na área da regência; Claudio Santoro, Walter Smetack e Gilberto Mendes em composição; Tom Jobim, Caetano Veloso e Tom Zé na música popular; e José Miguel Wisnik, Damiano Cozzella e Carlos Kater em pesquisa e musicologia.
Koellreutter ficou treze anos fora do país, período em que viajou ao Japão e à Índia, o que lhe propiciou uma visão integradora da música. Ao combinar a espiritualidade milenar da cultura oriental e a teoria quântica da física moderna, formulou uma síntese a qual batizou de ‘‘estética relativista do impreciso e do paradoxal’’, projetada em obras como a ópera ‘‘Caf钒, a série ‘‘Tanka’’ e o conjunto de composições ‘‘Acronon’’.
Em ‘‘Acronon’’, cujo CD será lançado amanhã em Londrina, o ouvinte tem contato com as diversas fases da carreira do maestro. O disco reúne 9 composições ‘‘executadas’’ pelo pianista Sérgio Villafranca, com participação do flautista Wagner Ortiz. Pulsam ali as inquietações que visitaram o pensamento do Koellreutter nos últimos 50 anos: os conceitos de tempo (o de relógio e o vivencial); a substituição de melodia e harmonia pelo chamado campo sonoro; a ausência de referenciais fixos e pré-determinados; a equivalência de todos os componentes da partitura; a transcendência entre o dualismo dos opostos (consonância-dissonância, primeiro tema-segundo tema, tempo forte-tempo fraco etc).
Villafranca revela-se um discípulo aplicado também no vídeo ‘‘Concertos Comentados’’, o outro lançamento de amanhã, no qual aparece tocando ao lado do mestre numa gravação registrada em dezembro passado no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo. Num diálogo espontâneo e bem-humorado, os dois artistas exercitam os conceitos do sistema estético do compositor.
Video, disco, palestra, recital e programa de rádio se complementam na homenagem dedicada ao ilustre visitante. Mas para melhor compreender a obra do mestre, talvez só a adesão completa à programação dos dois dias. Os ingressos tanto para a palestra de logo mais como para o concerto de amanhã custam R$ 10,00 e R$ 5,00 (estudantes e aposentados). O evento é uma realização do Núcleo de Música Contemporânea da UEL e Vivarte Produções Culturais.

mockup