O mestre da gargalhada
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de agosto de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 
Se você é daqueles que acha que Jim Carrey ou Eddie Murphy são o máximo, então está na hora de rever seus conceitos. O caminho é sintonizar o canal por assinatura Telecine Happy da Net, todas as noites até o dia 18, e conhecer um dos dois (o outro é o francês Jacques Tati) únicos cômicos que se mostraram capazes de dar continuidade, a partir da segunda metade do século passado, à grande tradição da comédia pastelão dos anos dourados: Jerry Lewis. Iniciada segunda-feira com ''A Farra dos Malandros'', a retrospectiva, que estaria melhor acomodada no vizinho Telecine Classic, exibiu ontem ''O Meninão''. Não é completa, embaralha um pouco as filmografias, de Lewis como ator e dele como ator e diretor. Mas ainda assim é bem representativa, com algumas jóias de indiscutível pureza e valor.
Injustamente negligenciado, em parte por parcela da própria crítica norte-americana, Jerry Lewis nasceu Joseph Levitch em 16 de março de 1926, filho judeu de uma família de comediantes. Ator desde cedo, iniciou carreira solo, interrompida após seu encontro com o cantor Dean Martin em meados dos anos 1940. Juntos, os dois logo se converteram em celebridades nos palcos do circuito artístico do país. Era evidente que a imensa popularidade da dupla seria em seguida capitalizada pelo cinema. A partir da estréia em 1949, em ''Amiga da Onça'', de George Sidney, Lewis & Martin aparecem em mais 16 filmes sob as ordens de outros três diretores. Um deles, Frank Tashlin, seria vital para a carreira de Jerry como ator e como diretor, ao criar gags originais, ousadas e extravagantes.
A colaboração entre Lewis e Martin acabou azedando depois de quase uma década, e a ruptura deu animo novo ao cômico. De ator, Jerry Lewis passou também a roteirista, diretor e produtor, funções que em muitos momentos passou a desempenhar com rasgos de pura genialidade. Independente, Lewis recrutou Frank Tashlin para dirigi-lo, o que acabou ocorrendo para felicidade de ambos e do publico em seis oportunidades a partir do final dos anos 50. São dessa época títulos como ''Bancando a Ama-Seca'' e ''O Rei dos Mágicos'' (58), ''Cinderelo Sem Sapato''(60), ''Detetive Mixuruca'' (62), ''Errado Pra Cachorro'' (64) e ''Bagunceiro Arrumadinho''(64). Todos repletos de momentos inspirados.
Sua estréia como roteirista e diretor foi com ''O Mensageiro Trapalhão'', de 1960 uma ausência inexplicável do ciclo do Telecine. A comédia, muito elogiada por Chaplin, rendeu homenagem à inspiração mais carimbada de Lewis: Stan Laurel, o Magro da dupla famosa, com direito à participação especial no filme. E o personagem de Lewis não por acaso chama-se Stanley. Além de ''The Bell Boy'', ele dirigiu ainda uma dezena de comédias, algumas menos, outras mais sucedidas. Entre estas, a citação obrigatória é para a antológica
''O Professor Aloprado'', de 1963, seu trabalho mais estimado pela crítica e merecido sucesso de publico a refilmagem recente com Eddie Murphy não passa de grotesca vulgarização escatológica.
Nos anos 70, Lewis perdeu ímpeto criativo e prudentemente se afastou do cinema durante muito tempo, dedicando-se a escrever à televisão e ao teatro. Atingido por uma tragédia familiar, desde esta época empenha boa parte de seu tempo à Associação Americana de Distrofia Muscular foi inclusive indicado para o Nobel da Paz em 77. Sua ultima aparição pública, aos 73 anos, em grande forma física e ótimo da cabeça, foi para receber homenagem especial do Festival de Veneza de 1999. Parado no meio do palco, de bermudas, tênis e meia, era o eterno adolescente, com os mesmos trejeitos de cabeça, a mesma pantomima, o mesmo olhar desvairado que tanto buscou compreender o o quase sempre absurdo mundo real.


