O MESTRE DA EXTRAVAGÂNCIA
Um século não foi suficiente para envelhecê-lo. No centenário da morte do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), celebrado hoje, fica a suspeita de que nem os mais ferrenhos críticos seriam capazes de encontrar rugas em sua obra.
Oscar Wilde, o dândi espirituoso que escandalizou a Inglaterra vitoriana, continua inspirando leitores de seus livros e especialmente espectadores de suas peças. Para comemorar esta efeméride, vários lançamentos editorais estão chegando ao público daqui e do exterior. Até uma nova biografia foi publicada lá fora, tentando trazer informações novas além das que vieram à luz pelas páginas do monumental volume escrito há pouco mais de uma década por Richard Hellman.
No Brasil, uma chuva de títulos inunda as prateleiras: O Melhor de Oscar Wilde (Garamond), Aforismos ou Mensagens Eternas (Landy), A Esfinge e seus Segredos Máximas e Citações de Oscar Wilde (Record), Oscar Wilde, Uma Fotobiografia (Record) e Chá das Cinco com Aristóteles e Outros Artigos (Lacerda). No Rio de Janeiro, permanece em cartaz até dezembro a peça Com Amor, Oscar Wilde, com direção de Ivone Hoffman.
Wilde merece. Afinal, sua obra é corriqueiramente ofuscada pela menção a seu martírio homossexual, que o levou à prisão e a um fim trágico. Não existe livro moral ou imoral. Os livros ou são bem escritos ou mal escritos tagarelou ele, certa vez. Foi com seu único romance, O Retrato de Dorian Gray, publicado em 1890, que ele ganharia projeção nos círculos literários ingleses.
Antes, já magnetizava a todos com sua verve satírica e extravagância comportamental. Perto dele, o poeta Mallarmé emudecia. O jovem André Gide, que mais tarde lhe dedicaria uma biografia, mal conseguia conter o deslumbramento diante de sua presença. A sociedade tremia com a irreverência de seus comentários, sempre tingidos pela sofisticação intelectual e mordaz indiferença ao senso comum.
É extremamente vulgar discutir qualquer assunto em sociedade porque, como se sabe, em sociedade todos têm as mesmas opiniões dizia. Frasista imbatível, gerou discípulos no mundo inteiro, inclusive no Brasil onde o mestre Millôr Fernandes está aí para provar e confirmar a ascendência de sua estirpe. Apóstolo da frivolidade, Wilde proclamava que só as qualidades supérfluas são duradouras.
Sentenciava ainda que em todos os assuntos sem importância o estilo, e não a sinceridade, é o essencial. Wilde foi um precursor da auto-promoção. Morando em Oxford, especializou-se em aparições escandalosas. Em seu último ano na cidade, foi a um baile de máscaras fantasiado de Príncipe Rupert, declarando que a reforma da maneira de se trajar era muito mais importante do que a reforma da religião.
Na época, saía à noite com um casaco de veludo bordado de rendas, calções até o joelho, meias de seda preta, uma camisa folgada de seda com um colarinho largo e uma enorme gravata verde. Uma pessoa ou deve ser uma obra de arte ou vestir uma obra de arte sublinhava com sua eloquência exuberante. O legado de Wilde inclui sonetos, poemas em prosa, ensaios, romance e peças de teatro.
Com estas últimas, alcançou prestígio popular arrastando batalhões de espectadores para ver sucessivamente O Leque de Lady Windermere (que trazia o epigrama É absurdo dividir as pessoas em boas ou más. Ou elas são interessantes ou são chatas), Salomé (escrita originalmente em francês e censurada por conter elementos bíblicos), Um Marido Ideal (que levou Bernard Shaw a escrever, na crítica do espetáculo, que Wilde era o único dramaturgo completo da Inglaterra) e A Importância de ser Prudente (seu maior sucesso e considerada seu melhor trabalho para o palco).
A Importância de ser Prudente estreou em 1895. Quando ainda estava em cartaz, veio o escândalo e o início do calvário do escritor com a manifestação pública do Marquês de Queensberry acusando-o de manter relações sexuais com seu filho, o Lord Alfred Douglas (que Wilde chamava de Bosie). Àquela altura, Wilde estava casado com Constance Lloyd com quem tivera dois filhos.
Acuado, tentou se safar processando o marquês por calúnia, o que só fez aumentar a ira do detrator. No tribunal, foi apresentada uma longa lista de rapazes com quem o artista teria se encontrado sob os lençóis. Massacrado pela moral vigente, foi julgado e condenado a dois anos de trabalho forçado, em Reading, de 1895 a 1897. O caso transformou-o, posteriormente, em mártir da intolerância vitoriana.
Na cela, escreveu dois de seus textos mais conhecidos: o poema A Balada do Cárcere, feito em memória do soldado C.T.W, condenado por ter assassinado a mulher que amava; e De Profundis, uma longa carta de amor ao efebo Bosie, em que faz um monólogo dramático falando sobre a dor, solidão e a descoberta da fé. Durante o julgamento, teve os bens confiscados e chegou a ser denunciado como plagiador pelos urubus que então se levantavam dos salões aristocráticos.
Depois de cumprir a pena, Wilde refugiou-se em Paris amargando a humilhação e a pobreza. Abandonado por todos, vagou como um mendigo pelas ruas até morrer em um fétido hotel aos 46 anos. Seu corpo foi enterrado no famoso cemitério Pére Lachaise. Oficialmente, apontou-se a meningite como a causa mortis. Mas Richard Hellman, o biógrafo, levantou a hipótese de que ele poderia ter desenvolvido uma sífilis contraída de uma prostituta, em 1878.
O assunto continua nebuloso e rendendo controvérsia até hoje. Há menos de um mês, o médico-pesquisador Asley Robins, da Universidade da Africa do Sul, divulgou um documento assinalando que Wilde morreu de uma infecção no ouvido. O detalhe, contudo, pouco interessa a quem já foi picado pela desconcertante agudeza de seus escritos.
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