O MESTRE DA CONCILIAÇÃO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de outubro de 2001
Francelino França<br> De Londrina 
O russo Konstantin Stanislavski (1863-1938) e o alemão Bertold Brecht (1898-1956) foram referências polares no pensamento teatral do século 20. Definindo esquematicamente os dois teóricos, o primeiro seria o defensor teatral da identificação entre ator e personagem, enquanto o segundo teorizou e aplicou o chamado distanciamento na representação. Na verdade, o pensamento de ambos superou essa definição. A obra de Stanislavski e Brecht foram traduzidas esparsamente e codificadas parcialmente.
A obra mais difundida do russo, ''A Preparação do Ator'', acabou sendo a única referência de seus ideais e cristalizou na chamada memória emotiva sua teoria, o que não equivale à verdade. Brecht, por sua vez, não possui todas suas obras traduzidas para o português. As confusões acerca do pensamento de Brecht também afetou o diretor, teórico e dramaturgo Augusto Boal, assim como o ator Paulo Autran declararam por diversas vezes a dificuldade de determinar o efeito de distanciamento de Brecht.
Mas essas duas correntes teóricas paralelas se cruzam no infinito. Quem se notabilizou por essa proeza de conciliar as duas metodologias foi o ator Eugênio Kusnet (1898-1975), mestre para gerações de atores brasileiros, preocupado com a formação do ator profissional. Kusnet, imigrante russo que desembarcou no Brasil em 1927, participou dos históricos grupos Arena e Oficina. Organizou nos anos 60 cursos de interpretação com base no método de Stanislavski. A súmula do pensamento de Kusnet pode ser encontrada no livro ''Ator e Método'', obra referencial para atores e diretores de teatro. O próprio Kusnet conciliou a metodologia de Stanislavski e o distanciamento épico de Brecht. Kusnet considerava correto falar em 'princípios' e não em método stanislavski.
Essa comunhão de pensamento entre o russo e o alemão é o tema do livro ''Ator e Estranhamento - Brecht e Stanislavski, segundo Kusnet'', de Edgar Pêra Rizzo (Editora Senac, 142 páginas, R$ 25,00). O autor, discípulo e ator de Kusnet por dez anos, procura recuperar em quais momentos a obra de Brecht e Stanislavski se interseccionam. Rizzo destaca que esse encontro dos métodos se dá na atitude científica diante do teatro e no plano elevado de exigência do ator. Tanto um quanto o outro sempre se preocuparam em colocar no palco seres humanos concretos. Stanislavski forneceu o processo de criação de personagem, enquanto que Brecht forneceu a concepção e a exposição dela em cena.
''Um ator treinado no método psicofísico de Stanislavski pode chegar a um bom resultado em peça antiilusionista'', ressalta o autor. Para o livro, Rizzo se vale de obras de Brecht ainda não traduzidas para o português. Esse afastamento ou distanciamento é a tentativa de mostrar e não viver a personagem. O que o diretor alemão procura é uma possibilidade de aliar o prazer de pensar ao prazer estético. Bertold Brecht não considerava Stanislavski um opositor, ele se valia das teorias do russo para enriquecer seus fundamentos.
O livro ''Ator e Estranhamento'' traz ilustrações da montagem ''Diário de Leningrado'', de Aleksei Arbusov, dirigida por Eugênio Kusnet e um glossário com os principais conceitos dos mestres do teatro.


