A ideia do novo é um bocado duvidosa. A nova novela não costuma ser realmente nova, mas apenas a mais recente. E o novo programa de variedades ou de entrevistas costumeiramente é tão igual quanto uma porção de outros que já apareceram e sumiram da tela, agora de LCD. O mesmo acontece com o programa de auditório, que muda quadros e cenários, mas se mantém muito parecido com suas primeiras experiências ainda na Era de Ouro do rádio. Caso do ''Programa Raul Gil'', da Band.
Raul poderia ser considerado um fóssil vivo na programação, mas é só dar uma olhadinha em volta e perceber que ele não está sozinho. Silvio Santos está desde os anos 60 fazendo o mesmo programa. Hebe, há 23. Gugu, com ''Domingo Legal'', há 15. Faustão e seu ''Domingão'', há 20 anos. E não é só na linha de shows. Desde 1969, o ''Jornal Nacional'' está no ar, num tempo em que os apresentadores ainda usavam gravatas estampadas e costeletas gigantes. O ''Zorra Total'', em sua combinação de esquetes de diversos humoristas, bem que tenta inovar, mas se mantém preso a uma estrutura de bordões muitíssimo mais antiga que a própria televisão.
Raul Gil comanda há décadas seu musical. E certamente não é o novo que lhe permite tamanha sobrevida. Numa emissora secundária, ele consegue trabalhar com artistas e gravadoras que não têm muito acesso aos principais canais de tevê. Desde inúmeros grupos nordestinos e de outros rincões do Brasil, até grandes artistas. A participação de Cauby Peixoto, há poucas semanas, em seu programa foi antológica. Sem forças para ficar de pé, o outrora ''Elvis Presley brasileiro'' fez uma apresentação limítrofe e emocionante.
A ausência de pressão para se manter na liderança da audiência pode ter benefícios, e Raul Gil sabe explorá-los. Seu programa permite a mistura de artistas variadíssimos, como novos calouros em busca do estrelato ao lado de grupos tão consagrados quanto Paralamas do Sucesso, Fundo de Quintal e Capital Inicial. E outros grandes artistas que raramente aparecem nas emissores-líderes, como o talentoso Genival Lacerda. Com seu vozeirão característico, os cabelos profundamente negros - por vezes acaju - e o indefectível microfone dourado, Raul Gil permanece no ar como um contraponto à idéia do novo. E lida com afetos que desconhecem tempo, gêneros e classes sociais.

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