Os números derrubam qualquer solicitação maior de refinamento musical. Portanto, qualquer crítica maior ao 39º disco de Roberto Carlos pode soar inútil, descabida e, principalmente óbvia porque ele não mudou. O novo trabalho chega às lojas com uma tiragem de mais de um milhão de cópias tendo como sempre um mote que Roberto há mais de 30 anos canta e, de uns tempos para cá, banaliza: o amor. O amor do ‘‘rei’’ está pasteurizado mas ainda vende. O amor do rei está quase tão insípido quanto água. Mas vende. É por esse único motivo que não se pode acusar Roberto Carlos de superado.
Quem compra os discos de Roberto Carlos sabe muito bem o que está levando para casa. São fãs que não se importam com tessituras, figuras de linguagem ou pretensões sonoras. Para essas pessoas, o novo disco de Roberto Carlos não vai decepcionar. Não vai, não vai, não vai. Lá está o mesmo Roberto amado, o Roberto sensível, o Roberto ‘‘rei’’, o Roberto azul, o Roberto imutável, o Roberto inquestionável, o Roberto enfim.
Ao todo, 10 faixas, oito das quais assinadas por Roberto e Erasmo. Eduardo Lages fez o arranjo de nove faixas. A produção é de Mauro Motta. E, como Roberto Carlos faz tudo sempre igual ano a ano, no disco estão baladas de amor, canções religiosas e homenagens às mulheres. Se em trabalhos anteriores Roberto e Erasmo cantaram as graças de gordas, baixas, negras, míopes ou hipermetropes, dessa vez as homenageadas são as mulheres de 40 anos.
‘‘Mulher de 40’’ é uma lenga-lenga, uma homenagem fútil bem como a faixa seguinte, ‘‘Cheirosa’’, que com um solavanquinho de salsa e seu refrão risível, lembra músicas de coquetel dançante. Mas em se tratando de homenagens feitas por Roberto Carlos é preciso ser didático para que algumas fãs mais exaltadas não encontrem chifre em cabeça de cavalo: fazer 40 anos e ser asseada é virtuoso. Mas que as músicas são fraquinhas, ah, isso são.
Revolucionário Mas é possível encontrar laivos de romantismo sincero em algumas músicas. ‘‘Quando Digo que te Amo’’ e ‘‘Comandante do seu Coração’’ são dois exemplos de que a verve de Roberto e Erasmo ainda continua afiada. Há também a regravação da belíssima ‘‘Como É Grande o Meu Amor por Voc꒒ que, para ouvintes mais exigentes, pode e deve servir de referência do que Roberto era e do que Roberto é.
As músicas religiosas também funcionam bem já que, nesse sentido, Roberto mostra toda sua majestade. É um dos poucos que podem fazer e cantar esse tipo de música sem ser acusado de oportunista. ‘‘O Terço’’, apesar da música arrastada, é um invocação comovente à Virgem Maria. ‘‘O Homem Bom’’ (Paulo Sete e Clayton Querido, com adaptação de texto feito por Roberto Carlos) vai pelo mesmo caminho.
‘‘Roberto Carlos’’ é uma cantilena, um canto melífluo quase enjoativo. Mais um na extensa discografia que, a partir da década de 80, passou a ser instável. É muito tarde para Roberto Carlos mudar, ou melhor, se aperfeiçoar. É que o mito ainda convence multidões a enfiar a mão no bolso e comprar suas mesmices anuais. Daí... Mas isso é muito pouco para um poeta que revolucionou a música brasileira e deu-lhe um caráter entusiástico e necessariamente pop. Um revolucionário não se acomoda. Um rei, sim!

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