O presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Raul Wasserman, está à frente de um dos maiores eventos da área cultural do País, a Bienal Internacional do Livro. A entidade também é responsável pelo Prêmio Jabuti, o mais disputado prêmio literário. De opinião incisiva em relação à política do mercado editorial no País, Wasserman costuma disparar farpas ao Ministro da Cultura Francisco Weffort, que nem aparece mais no evento.
O presidente da CBL critica principalmente a ausência de política digna às bibliotecas públicas. Para se traçar um comparativo, a França gasta cerca de U$ 2 por ano, per capita, em aquisições para bibliotecas públicas, resultando num investimento de US$ 120 milhões por ano. Já os EUA gastaram, em 1997, 6 bilhões de dólares na compra de acervos para seus sistemas de bibliotecas públicas, escolares e científicas.
‘‘No ano passado o Ministério da Cultura cometeu a façanha de comprar R$ 13 milhões, que dá um pouco mais de U$ 5 milhões de dólares para seu programa de bibliotecas, que pomposamente chama de ‘‘Uma Biblioteca em Cada Município’’. E ainda deu calote nas editoras, muitas das quais ainda não receberam por livros entregues em janeiro e fevereiro’’, denuncia o presidente da CBL. Leia a seguir trechos da entrevista com Raul Wassermann.
Como explicar a matemática em que há uma queda de 10% no número de exemplares comercializados no ano passado e o aumento do mesmo índice no faturamento das editoras? Subiu o preço do livro?
No ano passado a inflação foi de 7,64% e o preço dos livros já estava represado há muito tempo. Houve, portanto, uma recomposição do preço. Considere-se também que alguns dos insumos (papel) e os serviços, subiram bem mais que esses 7,64%, que é somente uma média.
O governo federal prevê para 2002 um aumento nos investimentos no setor de livros didáticos? E para o outro filão do mercado editorial, não haverá nenhum tipo de incentivo?
O governo tem uma política para o livro didático – que abrange 55% do mercado total – que é muito importante e significativa. Não existe, entretanto, uma política digna desse nome para as bibliotecas públicas, que são uma verdadeira vergonha nacional. Por isso, as compras governamentais para os setores de livros de obras gerais e técnico-científicos são insignificantes.
Esse ano houve uma polêmica em relação à premiação do Jabuti. A criação do Prêmio Jabuti para autores já falecidos foi uma saída emergencial?
A polêmica foi por parte de alguns editores que achavam que tinham que ser premiados e não foram. A CBL indica um corpo de jurados independente que escolhe os livros. A decisão de criar uma categoria especial para os autores já falecidos não foi em função dessa polêmica. Quando o regulamento do prêmio deste ano foi lançado, estava clara essa decisão, de valorizar e premiar com o prêmio em dinheiro os autores vivos.
Existe realmente o lobby do editor para o Prêmio Jabuti, em função da visibilidade que a premiação dá?
O corpo de jurados só é anunciado depois do prêmio conferido, garantindo sua isenção e liberdade. Os editores podem fazer - e eventualmente fazem - campanha para o Livro do Ano de Ficção e Livro do Ano de Não-Ficção.
A política governamental de estímulo ao livro e à leitura realmente existe no Brasil? O que poderia ser feito para baratear o custo do livro no País?
Não existe uma política consistente de estímulo à leitura no Brasil. O aumento de tiragem que as compras para bibliotecas fariam com que as pessoas que compram livros os tivessem mais baratos. Os livros não pagam impostos no Brasil (ICMS e IPI). As editoras e livrarias pagam os impostos como qualquer empresa (imposto de renda, cofins, seguridade social, etc.). O problema não é o de menos imposto para os livros, embora a nossa carga tributária para as empresas seja pesada e injusta. O problema é a inexistência de uma política de bibliotecas públicas que permita o acesso da população ao livro.
Não é contraditório termos um Presidente da República escritor e que não dá apoio efetivo ao setor de livros?
Boa pergunta para ser feita para ele. Aliás, o Ministro da Cultura também é sociólogo e autor. Entretanto...
Segundo a pesquisa do IBGE sobre os municípios brasileiros, apenas uma em cada cidade brasileira possui uma biblioteca. Como o mercado editorial pode crescer num ambiente tão desolador?
O mercado editorial brasileiro, no que se refere ao livro não escolar, parece um saci: pula numa perna só, a do mercado comprador. Nos países que realmente levam a informação, cultura e cidadania a sério, esse setor caminha em duas pernas sólidas e exercitadas: um mercado comprador com bom poder aquisito e um sistema de bibliotecas que compra livros.
As políticas educacionais interferem diretamente no crescimento do mercado editorial?
Na pesquisa ‘‘Retrato da Leitura no Brasil’’, que a CBL fez ano passado, demonstra-se claramente que a correlação entre grau de instrução e leitura é mais forte de todas. Mais forte que sexo, idade, classe social e renda. É, portanto, uma verdade que as políticas educacionais têm um efeito direto no fortalecimento do hábito de leitura.

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